Abas/ guias

24 de set. de 2012

Resenha de "O IMPÉRIO JAPONÊS"

HALL, J. W. El imperio japonés. História Universal: Siglo XXI, 1986.


Aos que indagam as origens do capitalismo no Japão, certamente será possível compreender em linhas gerais, após a leitura desse texto de Hall, como foi que o país foi inserido nesse sistema, ainda durante o processo de Revolução Industrial que ocorria no Ocidente durante o século XIX. É no mínimo de se estranhar, contudo, que uma economia tão enraizada em sua cultura milenar passou, quase que de uma hora para a outra, ou, ao longo de alguns poucos anos, a aceitar um modelo econômico que quase arruinou com sua identidade local.

Com a destruição do xogunato Tokugawa em 1868 pelo imperador Meiji, o regime ditatorial feudal que foi mantido desde o século XV deu lugar a uma coalizão formada por poucas grandes unidades administrativas em substituição às centenas de bans antes existentes, com a finalidade de salvar o estado das dívidas que vinha acumulando, por meio da racionalização dos gastos do estado, além de fortalecer militarmente seu território contra o avanço das economias ocidentais interessadas em invadir e dominar seu mercado.

O processo de mudança levou adiante alguns aspectos que determinaram uma verdadeira restauração na estrutura sócio-econômica japonesa. Além de abolir os velhos costumes, por meio da simplificação da estrutura de classes sociais, a Era Meiji realizou reformas fiscais, financeiras, e também agrária, o que permitiu um grau de liberdade nunca mesmo visto por essa sociedade. Ao eliminar os privilégios da classe samurai, o Estado japonês formou um novo exército nacional através do recrutamento obrigatório dos seus habitantes, o que lhe permitiu eliminar aos poucos grande parte (1/3) da carga financeira imposta às contas nacionais.

Partindo-se da estratégia de aceitar voluntariamente as condições comerciais impostas pelo imperialismo europeu, o processo de ocidentalização da economia japonesa teve início já na década de 1970, quando tanto técnicos japoneses eram enviados ao exterior pelo imperador, como os estrangeiros trazidos ao Japão, ambos com a tarefa de levar modernização, amplitude e rapidez à economia local. Junto ao progresso também surgiram efeitos controversos advindos da influência Ocidental. No auge da restauração, o cristianismo ganhou enorme importância no Japão e, juntamente com outros hábitos ocidentais que começavam a ser adotados, por pouco não arruinou sua identidade religiosa e até mesmo cultural.  

21 de set. de 2012

Resenha de "A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL NA ITÁLIA"


CAFAGNA, L. La revolución industrial en Italia 1830-1914, in CIPOLLA, C. Historia Económica de Europa: primera parte. Barcelona: Ariel, v. 4, 1987.

Àqueles deslumbrados com a história da industrialização inglesa, alemã e, inclusive a americana, torna-se um pouco difícil assinalar grandes êxitos ao desenvolvimento e formação da economia capitalista italiana após a leitura desse texto de Cafgna, com exceção ao "triângulo industrial" formado pelas três regiões do noroeste – Milão, Turín e Gênova –, que entre elas pareciam formar um país quase que autônomo e desvinculado, durante praticamente todo esse período, das demais regiões do sul da Itália. Desde o início da sua industrialização, marcada originalmente por inovações tecnológicas para manuseio do seu principal produto de exportação à época, principalmente a seda, a economia italiana era composta por uma estrutura produtiva formada pela presença de pequenos empresários progressistas e empreendedores, que vinham sendo influenciados pela visão de mundo de alemães e ingleses, e uma massa de trabalhadores condicionados pelo putting out system, ou oferta de mão de obra barata recrutada nas zonas agrícolas pobres.

Sem praticamente nenhum impulso para o desenvolvimento da indústria de bens de capital, com forte razão à baixa força motriz disponível no país, a Itália se ancorou por muitos anos na dependência do seu sistema de câmbio livre para promover o desenvolvimento, já que o sistema ferroviário ali construído pouco impacto desempenhou sobre suas atividades industriais. Apenas em 1870, com o fim da Guerra Franco-Prussiana, é que investimentos começaram a ser alocados em maior quantia em outros setores que não somente o têxtil, como o ferro e a maquinaria de baixa intensidade tecnológica. Sem êxito, as décadas seguintes acompanharam a emigração ultramarina de grande contingente populacional. A Itália saiu favorecida com isso, posteriormente, devido à parte dos salários que os estrangeiros enviavam de volta a seus parentes no país e que permitiu, em meados do século XX (1885), o seu segundo grande impulso industrial. Amparada na introdução da energia hidrelétrica em substituição ao carvão, o país pôde finalmente instalar sua indústria pesada. A maior parte dos investimentos foi, porém, para produção de equipamentos de pequeno porte, com os quais a Itália se consagrou, a exemplo da máquina de escrever Olivetti, e da produção dos bens de consumo duráveis, como as bicicletas e os automóveis.

20 de set. de 2012

Resenha de "ALEMANHA: IMPÉRIO, BARBÁRIE E CAPITALISMO AVANÇADO"

BRAGA, J. C. S. Alemanha: império, barbárie e capitalismo avançado. IN FIORI, J. L. (Org.). Estados e oedas no desenvolvimento das nações. Petrópolis: Vozes, 1999 p. 191-221


Neste breve artigo sobre a história do capitalismo na Alemanha, o autor resume numa linguagem simples, atual e objetiva alguns dos aspectos mais importantes que permitem compreender a evolução e o papel de destaque que a economia alemã vem exercendo no cenário geopolítico mundial desde meados do século XIII, antes mesmo do auge da sua industrialização, o que é facilitado pela divisão proposta pelo autor em três diferentes períodos fazendo, assim, juz ao títudo da obra com os mesmos nomes.

A fase denomiada de Império corresponde ao passado da industrialização alemã, momento marcado pela intensificação das ações centralizantes e a racionalizadoras do estado prussiano e, posteriormente alemão, que extenderam-se até antes da Primeira Guerra Mundial (1914-18). Entre as medidas “Cameralistas” destaca-se o Zollverein (União Aduaneira), que apoiado na expasão do financiamento público, bem como na infraestrutura ferroviária já na primeira metade do século seguinte, tinha o objetivo eliminar os obstáculos em relação ao desenvolvimento já alcançado pela Inglaterra (closing the gap) e impulsionar, principalmente, o comércio e a indústria nacional.

A partir do entendimento dos fatos ocorridos no período entre guerras (1914-1945), porém, denomiado de Barbárie, que o autor posicionou o surgimento do regime econômico nazista, cuja origem remete a um revés marcado por crises econômicas e intensas tensões sociais oriundas da crise de 1929, nos EUA. O momento é marcado pela reação alemã contra o capitalismo, em meio à ascensão de dois regimes, o bolcheviquismo, na Russia, e o fascismo, na Itália. A solução encontrada para recuperação econômica foi feita, como se sabe, pela eclosão de uma verdadeira “Arquitetura de Destruição” que levou o país a condição de pleno emprego.

Passado os conflitos e comprendido as especialidades institucionais e estratégias presentes ao longo da história econômica do país, o autor explica o momento seguinte, denominado Capitalismo Avançado, marcado por uma postura estatal intervencionista frente às políticas absolutamente liberais exercidas por governos em outras partes do mundo, com destaque ao papel do sistema financeiro público e privado na sustentação da taxa de investimento.

19 de set. de 2012

Resenha de "A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL NA ALEMANHA"

BORCHARDT, K. La revolución industrial en Alemania 1700-1914, in CIPOLLA, C. Historia Económica de Europa: primera parte. Barcelona: Ariel, v. 4, 1987.


            Apesar da característica da Revolução Industrial ser semelhante nos diferentes países que a revelaram entre as décadas de 1780 e 1870, todas as quais acompanhadas por revoluções demográficas, agrárias e tecnológicas, o mesmo seria impossível ser dito sobre a forma e o momento em que cada qual surgira na sua própria região. Na análise de Borchardt sobre o caso alemão, o autor não só tem o objetivo de revelar ao leitor as particularidades do fenômeno que ocorrera tardiamente nesse país, notadamente no que diz respeito aos seus condicionantes históricos, geográficos e estratégicos, a contar do século XVIII, bem como os aspectos mais relevantes no que diz respeito a cada uma das três fases da sua industrialização (1850-1873; 1874-1895; 1896-1914), sem que deixe de mencionar o período pré-industrial (1815-1849).

Conforme os critérios usados pelo autor para admitir tal periodização, não havia antes de 1850 na Alemanha os elementos necessários para que o país revelasse sua inserção na nova "economia de mercado" impulsionada por seus vizinhos britânicos. Pelo contrário, a falta de uma unidade econômica e política, que só foram conquistadas em 1834 e 1871, respectivamente, a partir da união aduaneira derivada da noção de uma cultura nacional alemã e da construção de estradas de ferro que ligavam pontos em toda a região, tornaram-se verdadeiras barreiras ao seu desenvolvimento nascente e levaram ao lento progresso da industrialização nas primeiras décadas do século XIX.

O início do putting out system, como ficou conhecido o processo de produção industrial alemão, deve-se também à emancipação do trabalhador servil em assalariado. Após o decreto de Stein, em 1807, houve aumento da oferta de trabalho barato à indústria nascente, situada com baixo nível, ou progresso técnico. Não obstante, esse aparente atraso foi, na realidade, uma oportunidade para o avanço da sua industrialização a partir dos anos 1840, quando o capital das sociedades anônimas direcionou-se à indústria de bens de capital, mais moderna do que a dos concorrentes ingleses. Mas mesmo que o progresso técnico só tenham ocorrido, em grande parte, após os anos 1850, por que não considerar a Revolução Industrial nesse país à partir do putting out system, momento em que o sistema de produção já demonstrava-se ser claramente capitalista?

17 de set. de 2012

Resenha de "AMÉRICA ANGLO-SAXÔNICA DE 1815 À ATUALIDADE" - Segunda Parte

FOHLEN, C. América anglo-saxônica de 1815 à atualidade. São Paulo: Pioneira, 1980, segunda parte



A leitura do trecho selecionado da obra de Fohlen garante ao leitor pouco familiarizado com a história norte-americana um entendimento simples, porém relativamente abrangente, sobre a formação econômica dos EUA e do Canadá, contados a partir de meados do século XVIII, com destaque à independência das treze colônias que formaram a República americana (1783), até a eclosão do crack da Bolsa de Nova York em 1929.

De fácil e rápida leitura, a obra chama a atenção por sua objetividade no que diz respeito aos acontecimentos e conflitos de interesses que marcaram a divisão dos territórios e a estruturação das sociedades anglo-saxônicas tanto dos EUA como do Canadá, sobretudo a partir de 1815, quanto a incorporação do maquinário britânico (navegação a vapor e trens) gerou novo impulso à colonização dos territórios a Oeste dos Grandes Lagos.

Com a construção de canais e estradas de ferro não só foi possível aos EUA expandir seu território às terras do Oeste, como também escoar sua produção do interior do país aos portos do Leste, possibilitando-lhe também transformar sua economia, anteriormente agrária, em uma vasta economia de mercados comercialmente protegida pela declaração Monroe (1823), que representou um século de isolamento comercial dos EUA frente aos concorrentes europeus.

O regime liberal e capitalista se empunha a medida que as trails cortavam todo o território norte-americano e garantiam as bases para a Idade de Ouro, entre os anos 1860 e o final do século XIX. Tal fenômeno levou à divisão do trabalho entre uns poucos robber barons donos dos grandes trustes setoriais da época e uma massa de mão de obra barata que emigrava às milhares da Europa aos EUA estimuladas pelas melhores condições de trabalho que aí poderiam encontrar.

Em 1905 os EUA já eram considerados uma grande potência do Ocidente sendo capaz de intervir militarmente, culturalmente e economicamente em qualquer país onde houvesse interesse em assegurar as vendas com rendimentos positivos aos seus investidores. Do imperialismo ao reformismo que teve lugar nas primeiras décadas do século XX, os EUA passam por uma nova fase de Ouro na década de 1920, após sair como maior credor líquido do pós I Guerra Mundial. Sem aumentar o número de operários, mas, sua produtividade, o ano 1929 é marcado pelo crack da Bolsa de Nova York.

15 de set. de 2012

Resenha de "A GRANDE TRANSFORMAÇÃO" - Cap. 3 a 10

POLANYI, K. A Grande Transformação. Rio de Janeiro: Campos, 1980, Cap 3 a 10



Os capítulos analisados de A Grande Transformação fazem jus à elementar obra de Karl Polanyi, autor que conseguiu penetrar ao entendimento sobre as bruscas modificações da ordem social que foram inicialmente observadas na Inglaterra ainda em períodos anteriores ao da Revolução Industrial – durante o Mercantilismo – e que se consolidaram desde aí, com um ritmo cada vez mais veloz, para todo o mundo. O que talvez tenha tornado sua obra tão excêntrica é a abordagem do autor no que diz respeito às evidências dos impactos dessa extrema e brusca mudança nas bases sociais, notadamente em relação ao quadro institucional da sociedade Ocidental da época, marcada por laços de reciprocidade que há séculos era mantida entre os grupos produtivos, em detrimento de um novo regime estabelecido com base na determinação do "moinho satânico" do capital e, sobretudo no ordenamento do "exército industrial de reserva", através da formalização do mercado de trabalho.

Para Polanyi, o trabalho foi o último dos fatores produtivos a ser organizado em um sistema de mercado controlado por preços – após o capital e a terra – sem o qual não seria possível que a economia de mercado se tornasse auto-regulável. Trata-se, segundo o autor, de um sistema em que o máximo ganho monetário tornou-se o principal objetivo dos indivíduos, ante as relações de generosidade e reciprocidade sustentadas até o final do Feudalismo Ocidental. Ao passo que trabalhadores rurais haviam sido expropriados das terras comuns que lhes permitia a subsistência, através do início da política dos cercamentos (enclosures), iniciadas três séculos anteriores a Revolução Industrial e que lhes resguardava certa segurança social, novas modalidades de assistência social foram criadas a partir desta data como meio de regular o mercado de trabalho aos objetivos do capital e dirimir possíveis levantes contra o novo regime.

Assim foi no período Speenhamland (1795-1934), que criou um sistema de abonos salariais que garantia a qualquer cidadão certo "direito à vida" caso sua renda fosse menor do que a necessária para sua subsistência, com a Poor Law Reform (1834), e com o reconhecimento dos Sindicatos, a partir dos anos 1870. Longe de garantir qualidade de vida à população, tais mecanismos não passaram de verdadeiras armadilhas que tornaram a sociedade, e sua fé cega pelo progresso, não mais que um simples acessório dessa nova economia mercado auto-regulável.

14 de set. de 2012

Resenha de "O CAPITAL" - Cap. XXIII

MARX, K. O Capital. v. 1, 2. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1985, Cap XXIII



Em "A Lei Geral da Acumulação Capitalista", Karl Marx leva o leitor – provavelmente um trabalhador assalariado, ou detentor de pequeno capital – a uma certa onda de temor e apreensão diante do estado de lucidez em que passa a se encontrar. Através da série de esclarecimentos no que toca ao ímpeto da acumulação capitalista em sua forma ampliada, torna-se evidente como seus pensamentos foram preservados ao longo do tempo, assemelhando-se em número e grau aos acontecimentos perversos entre as forças produtivas nos dias de hoje.

Marx define como reprodução em escala ampliada, ou a acumulação, como a relação do capital em forma ampliada, ou seja, a reprodução do capital em mais capital – este último geralmente com melhor tecnologia para substituir o original – em comparação aos níveis cada vez menores de força de trabalho empregada, que incorpora a crescente "produtividade social do trabalho". Segundo o autor, tais condições perpetuam a real dependência do trabalho com seu próprio produto, o capital, esse último que torna a garantir parcelas maiores de mais valia (relativa), ou trabalho não pago, em escala crescente.

Não obstante, como a parcela de capital variável na composição do capital – correspondente ao acréscimo de mão de obra – é cada vez menor em comparação ao crescimento absoluto da população trabalhadora, o autor considera que "a acumulação capitalista produz constantemente uma população trabalhadora adicional relativamente supérflua" (p. 199), convertida em um verdadeiro "exército industrial de reserva", que permanece disponível ao capital, sendo ora absorvida, ora liberada, conforme as mudanças periódicas dos ciclos industriais do processo de acumulação capitalista.

Para Marx, esse exército de reserva, levado ao ócio forçado em tempos de crises, torna-se elemento fundamental ao enriquecimento da acumulação capitalista, uma vez que mantêm baixa a taxa de salários pagos à população ativa e contêm suas pretensões em momentos de crescimento econômico. Trata-se de um verdadeiro "despotismo do capital" sobre a classe trabalhadora.

Apesar da sua organização recente em sindicatos, que pleiteiam junto ao capital melhores condições trabalhistas, a fome continuará sendo capaz de fazer com a classe trabalhadora siga tão dependente do capital, em troca de um salário médio que garante pouco, ou nada mais do que simplesmente o necessário à sua subsistência?

13 de set. de 2012

Resenha de "A EVOLUÇÃO DO CAPITALISMO MODERNO" - Cap. V, VI e VIII

HOBSON, J. A. A Evolução do Capitalismo Moderno. Abril, SP, 1993, Cap V, VI e VIII



Como parte do núcleo da obra de Hobson, os capítulos em referência abordam o cerne do capitalismo moderno do final do século XIX, notadamente o caso do desenvolvimento das grandes corporações empresariais sob a forma de trustes nos EUA, caracterizadas por monopólios setoriais cuja "necessidade de um capital vultoso é maior do que em qualquer outra operação financeira" (pag. 91), com destaque às operações de grande escala de produção, a exemplo da extração de ferro e aço, produção de bens de capital e, principalmente, a indústria de transportes ferroviários, na qual a relação capital-trabalho era superior a de qualquer outra indústria da época e que, em última instância, comprovava a tendência absolutamente concentradora das empresas participantes nesses segmentos.

Além do processo de concentração do capital em poder das holding trust, que não apenas verticalizavam todas as etapas de uma mesma cadeia produtiva, desde a extração da matéria-prima, até a venda do produto industrializado no atacado, esta fase da história também revela a grande ascensão das empresas financeiras no período. Sendo elas as responsáveis pelas operações de crédito às grandes firmas, sem os quais essas últimas não conseguiriam o capital necessário à sua expansão, as empresas financeiras tornaram-se as grandes dominadoras das atividades industriais dos grandes grupos e passaram a exercer grande influência sobre as decisões do Estado nacional, a contar das políticas de proteção aduaneira conduzidas nos EUA, bem como pelo domínio da corrupção política exercido com fins comerciais naquela época.

Deveras responsável pela grande expansão econômica nos EUA, onde foi crucial para a o desenvolvimento de diversos setores estratégicos que fariam frente à forte concorrência dos produtos europeus, é de surpreender o grau de organização com que o grande capital industrial, sob a tutela do capital financeiro, conseguiu organizar toda a base da economia americana. Ainda que houvesse espaço para outras empresas, com porte menor, e alocadas em setores menos capital intensivos, como o setor têxtil, para realizar atividades customizadas, específicas, ou de suadouro (sweating business), o controle da holding trust impunha ao consumidor final, ainda assim, um tributo tão grande como se toda a cadeia produtiva estivesse incluída na esfera do seu monopólio. Revela-se aí a submissão do Estado nacional ao capital financeiro internacional?

12 de set. de 2012

Resenha de "DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL INGLESA AO IMPERIALISMO" - Cap. 6 a 10

HOBSBAWM, E. Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. Forense, RJ, 1978, Cap 6 a 10


Os trechos em destaque da obra de Hobsbawn revelam o que autor denominou ser a segunda fase da industrialização britânica, amplamente difundida, ou popularmente conhecida como Segunda Revolução Industrial, entre os anos 1840-1895. O período ficou assim conhecido por revelar as drásticas mudanças de caráter científico-tecnológico, de processos produtivos padronizados e de escalas de produção jamais vistas na história, notadamente nas indústrias pesada, de carvão, ferro e aço, que juntas serviram para revolucionar os meios de comunicação e transportes utilizados na época.

Com a crescente demanda para aquisição de bens de capital advinda das outras economias mundiais, o cenário foi propício para que os investidores ingleses transferissem suas poupanças privadas para financiar a ampliação da "mania ferroviária" (1835-1847) às economias mundiais sob sua influência. Ao passo que o feito ampliava a oferta de trabalho à "massa" de mineiros, agricultores e operários industriais ingleses, os movimentos proletários como o socialismo primitivo e o cartismo pareciam enfraquecer-se, ou mesmo desapareceram. A Inglaterra contava, agora, com uma classe de proletários disposta a aceitar a proposta do laissez-faire e preocupada com a melhoria dos seus rendimentos antes que mesmo seus ideais.

Após estrondosa expansão da corrente do comércio internacional entre meados da década de 1850 e início de 1870, a Inglaterra deparou-se com a chamada "Grande Depressão" (1873-96), marcada pela perda da sua hegemonia mundial para EUA e Alemanha, que passam a concorrer e proteger suas economias das mercadorias britânicas. O "imperialismo" frente as colônias "formais" e "informais" foi a forma encontrada pelos ingleses para tentar assegurar sua soberania mundial e, a rigor, a Inglaterra utilizou sua supremacia naval para impor e continuar a exportar seus produtos a toda parte do mundo. A piora dos termos de troca dos seus produtos frente aos importados tornou sua economia cada vez mais dependente do que consiste à parte "invisível" do seu balanço de pagamentos, ou o que atualmente chamamos Balanço de Serviços, Rendas e Transferências Unilaterais Correntes. A indústria naval de ferro e aço a vapor inglesa foi a última em ascensão, porém, também não foi capazes de assegurar sua soberania na nova ordem mundial.

11 de set. de 2012

Resenha de "DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL INGLESA AO IMPERIALISMO" - Cap 1 a 5

HOBSBAWM, E. Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. Forense, RJ, 1978, Cap 1 a 5


Os primeiros capítulos da referida obra de Hobsbawm são dedicados a analisar o período inicial da Revolução Industrial na Grã-Bretanha, notadamente no que se refere à investigação sobre as bases e os desdobramentos ocorridos nas áreas rurais da Inglaterra durante a segunda metade do século XVIII. Mais importante que qualificar o entendimento sobre o termo Revolução Industrial – cuja fase de rápida evolução técnica também já teria sido notada em outras economias que não a inglesa antes mesmo desse período – o autor busca esclarecer, então, através da análise sobre seus antecedentes históricos, o porquê da Inglaterra ter sido a primeira nação a "sediá-la" e justamente em fins do século XVIII.

Rica, poderosa e com notável marinha mercante, a Inglaterra contava no século XVIII com uma trajetória de duzentos anos de contínuo desenvolvimento econômico. Internamente, tal condição precedia da consolidação de uma sólida oligarquia liberal de base burguesa, de um lado e, de uma massa de camponeses proletários, de outro, que servia de mão de obra às atividades manufatureiras de pequenos proprietários rurais. Externamente, sua soberania foi fruto, fundamentalmente, da hegemonia comercial exercida sobre a "economia européia", pela conquista das suas colônias fornecedoras de matérias-primas na América, além da dominação de pontos comerciais no Oriente, que garantia "expandir novos mercados, senão criá-los" (p. 39).

Diferente do que posteriormente ocorrera na maior parte dos outros países no mundo, o processo de industrialização inglesa caracterizou-se pela produção em pequena escala de artefatos têxteis, além de outros bens de consumo não duráveis, como alimentos e bebidas, produzidos por glebas familiares de pequenas, porém hábeis manufaturas, que expandiam seus investimentos por adições sucessivas baseada no aumento em vendas. Ao passo que as vendas e o lucro aumentavam, novos dispositivos mecânicos eram incorporados e, embora simples aos padrões da época, eles permitiam que cada vez menos tecelões fossem necessários para operar os teares mecânicos, muito mais produtivos que suas antigas rocas de fiar. Menos relativa às invenções tecnológicas em si, a Revolução Industrial se tornou tão notável ao constituir-se no primeiro movimento capaz de transformar por completo as relações de produção dos homens na sociedade.

23 de ago. de 2012

Resenha de "O CAPITAL" - Cap. XXIV

MARX, K. O Capital. v. 1, 2. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1985, Cap XXIV



A Assim Chamada Acumulação Primitiva é um capítulo exuberante da obra de Marx. Tal termo se deve à série de revelações feitas pelo autor em relação ao ponto de partida do sistema capitalista, analisado e compreendido a partir de um processo de resgate histórico do período transcorrido aproximadamente entre os séculos XIV e XVIII na Europa e situado em um momento de transição da ordem econômica mundial, em que pese à coexistência de componentes feudais e capitalistas.

O trecho da obra aborda, portanto, a fase primitiva, ou “pré-histórica” do capitalismo e correspondente, segundo resumiu Marx, a um “processo histórico de separação do produtor e do meio de produção”. Trata-se de uma fase de intensificação do interesse pela acumulação de riquezas sob suas distintas formas, monetária, gemas, mais-valia e, sobretudo fundiária, levando à modificação das relações de produção entre os fatores, dos quais se distinguem claramente o capital, burguês, e o trabalho, que passa a ser “`livre` como os pássaros”, além do fator terra, ambos os últimos explorados pelo primeiro, “proprietário de toda a riqueza nacional em primeira mão”.

Diversos métodos de acumulação primitiva, ou extra-econômica, foram levados a cabo ao longo dos séculos e em distintas partes da Europa, com destaque a expropriação de base fundiária para fins comerciais e voltada a atender o mercado manufatureiro de lã que ascendia na Inglaterra. Tal condição desdobrou-se, inicialmente, através da transformação das terras aráveis em pastagens privadas sob a posse de uns poucos lordlands e, finalmente, em medidas legais que se tornaram verdadeiros veículos de roubos de terras comunais pelo Estado, como as citadas Bills for Inclusures of Commons, Inclosures of Commons e Cleaning of States, esta última caracterizada por um processo de extermínio e varredura de milhões de camponeses do campo.

Aqueles camponeses que sobreviviam formavam, paralelamente, um exército industrial de reserva, ironicamente “livre” – tanto por não ser servo ou escravo, como por não ter posse dos meios de produção – para servir de insumo à exploração do capital nascente. Soma-se a isso, finalmente, a Dívida Pública do Estado, uma das mais enérgicas formas de acumulação primitiva que surgiu na Inglaterra a partir de meados do século XVIII também a serviço do capital.

Resenha de "A ERA DO CAPITAL" - Cap. 1 a 5

HOBSBAWM, E. A Era do Capital (1848-1875). Paz e Terra, RJ, 1977, Cap 1 a 5



Os textos abordam o período conhecido como Era do Ouro do crescimento capitalista, correspondente às décadas de 1850 e início de 1870, conforme periodização adotada pelo autor, e retrata o fenômeno da Revolução Industrial, marcado por uma inflexão da ordem econômica mundial pós Revoluções Socialistas de 1848 na Europa. Vitoriosas em objetivos, porém brevemente abafadas, elas retrataram o levante da classe trabalhadora, composta de artesãos, pequenos comerciantes e agricultores, contra o regime Absolutista proeminente e que vinha de duas décadas de crises sociais. O destaque vai ao Manifesto Comunista de Marx e Engels, distribuído em diversos idiomas pelo continente e que disseminaram aos trabalhadores de diversas regiões – França, Confederação Alemã, Império Austríaco, Hungria, Itália – a consciência de si enquanto classe no panorama político global.

O ideal comunista perde força com a expansão da corrente do comércio internacional na década de 1950, que foi impulsionada pela economia inglesa de artefatos têxteis. Além de impulsionar o fluxo migratório mundial e levar à diminuição das taxas de desemprego em todo o continente, a economia inglesa também levou ao estímulo das economias periféricas mundiais exportadoras de matérias primas, notadamente o algodão.

Coube às descobertas tecnológicas a responsabilidade pelo acentuado aumento do volume e valor das trocas internacionais no período, uma vez que tenham sido de suma importância para o progresso no tempo das viagens longas de pessoas e mercadorias, a contar da estrutura férrea financiada na Europa e nos EUA pelo capital privado e na qual operavam as máquinas a vapor. Tão importante foi a descoberta do telégrafo, que possibilitou o extraordinário aumento da velocidade das comunicações mundiais, além das descobertas química e elétrica.

Em suma, o mundo todo passava a fazer parte desse novo sistema, o capitalista, marcado por acentuado liberalismo econômico do capital privado e da livre iniciativa, e por forte espírito nacionalista e concorrencial entre as nações, o que levou à ocorrência de guerras civis que deixaram milhares de mortos e também ao surgimento dos Estados-nações, como o italiano e o alemão, este último que já alcançava o potencial de força a vapor inglesa ao final dos anos 1970.

Resenha de "A EVOLUÇÃO DO CAPITALISMO" - Cap. II

DOBB, M. A Evolução do Capitalismo. Zahar, RJ, 1971, 2ª. edição, Cap II



No capítulo II da obra de Dobb, denominado "O Declínio do Feudalismo e o Crescimento das Cidades", o autor apresenta, as linhas gerais, a trajetória do modelo de produção Feudal em diferentes nações da Europa, Ocidental e Oriental, ao longo do período superior da chamada Idade Média, aproximadamente entre os séculos X e XV, mas que em algumas regiões estendeu-se até o século XVII, como no caso da Rússia.

Existem algumas definições sobre o Feudalismo. A primeira delas surgiu com base na compreensão jurídica da contratualidade da propriedade da terra. Paralelamente, o entendimento econômico do termo adquire olhar nas relações de produção entre o produtor direto (servo, ou vassalo) e o seu superior imediato (senhor), notadamente distinta das relações dos modos Escravista e Capitalista, em que pese à falta de liberdade de ir e vir, a propriedade dos meios de produção, bem como baixo nível técnico para suprir não mais que as necessidades imediatas.

É igualmente durante esse mesmo período que o autor faz referência à intensificação do uso do dinheiro para intermediar a troca de mercadorias e o consumo dos serviços no interior dos próprios feudos, bem como para o pagamento de produtores assalariados dentro das terras arrendadas. A consolidação da economia monetária, por sua vez, não apenas estimulou o aumento das correntes de comércio nas imediações dos feudos, onde surgiam burgos e cidades, como foi considerado um dos componentes para o declínio do modo de produção feudal.

Não há como atribuir apenas ao mercado monetário, contudo, a crise nesse sistema de produção. Tão, ou mais decisivo foram as relações internas presentes nessa estrutura produtiva, notadamente a exploração da mão de obra do camponês para satisfazer a necessidade de renda adicional por parte da classe dominante, bem como o despotismo esclarecido de senhores feudais, o que levou à migração em massa dos camponeses aos burgos, que surgiam como centros comerciais e livres da região.

O autor chama a atenção ao fato de que estas cidades, com origens distintas e imprecisas, porém meio servas e meio parasitas, no corpo da sociedade feudal, não puderam ser consideradas um microcosmo do capitalismo, uma vez que as relações ali estabelecidas subordinavam-se à autoridade feudal, perdurando por séculos ao longo da história.

22 de ago. de 2012

Impactos sobre as cidades: o drama das periferias metropolitanas (parte 4 - final)

Decorrente do inchaço populacional das cidades no Brasil, o processo de urbanização territorial tem causado não apenas pressão sobre a oferta dos serviços de utilidade pública para seus moradores – privando-os do direito ímpar à cidadania –, como os têm induzido a montar bases em áreas ilegais e zonas de risco mais afastadas das imediações dos centros urbanos. Esse post trata das evidências da expansão das periferias intra-urbanas localizadas nas regiões metropolitanas do território brasileiro, causadas por um processo de "urbanização difusa", e representadas pelo crescimento demográfico desordenado da população pobre que vive em condições de extrema vulnerabilidade social nas chamadas "manchas urbanas", estas, por sua vez, formadas nos limites de transição rural-urbano existentes nas grandes e, mas recentemente, também nas médias cidades do Brasil.

A realidade da urbanização do país se encontra em posição intermediária quando comparada à dos países da Europa e América do Norte, de um lado, e da situação da Ásia e África, do outro. Em 1950, o Brasil já ostentava o índice de urbanização de 36%, ponto em que os países asiáticos e africanos somente alcançaram no ano 2000. Pelo censo de 2010, a população urbana brasileira atingiu 84%, porcentagem superior a muitos países da Europa ocidental e também dos EUA, cuja média no mesmo período foi de 79% e 82%, respectivamente (Tabela no. 1).

Tabela no. 1 – População total e urbana em países e regiões selecionados (1950-2010)

Fonte: IBGE-SIDRA. Censo Demográfico (vários anos); UN DESA (on line)/ Elaboração do autor.

Durante a etapa intensa da urbanização, entre as décadas de 1960 e 1980, milhões de "retirantes" socialmente segregados migravam das periferias nacionais em ritmo frenético e contribuíam com o aumento da concentração populacional urbana, sobretudo nas regiões metropolitanas, ao redor das quais surgiam inúmeras novas cidades. Tomando o exemplo do estado de São Paulo, o saldo de entradas e saídas de pessoas nesse estado passou de 1,6 milhão em 1970 para cerca de 4,4 milhões em 1980, com destaque à chegada de nordestinos e mineiros ao estado (Tabela no. 2). Apesar dos dados apresentarem elevação do estoque do fluxo de pessoas também em 1991 (5,3 milhões), verifica-se que o aumento apenas na década encerrada em 1980 (2,8 milhões de pessoas) foi muito maior do que no da década seguinte, encerrada em 1991 (913 mil pessoas).
Tabela no. 2 – Movimento migratório inter-regional (a): saldo do fluxo acumulado de entradas e saídas em relação ao estado de São Paulo (1940-1995)


Fonte: CANO, 2007, p. 368-74; baseado em (dados brutos): IBGE. Censos Demográfico (vários anos)/ Elaboração do autor.
(a) Conceito: local de nascimento e residência
*Norte: inclui TO a partir de 1980.
** Representa o total de Piauí à Bahia
*** Inclui Guanabara (GB) até 1970.

As "cidades dormitório", como são chamadas, formam verdadeiros "sistemas urbanos" ligados às áreas metropolitanas nacionais para o centro das quais todos os dias a população pobre se desloca para trabalhar. É comum àqueles que vivem ou trabalham na cidade de São Paulo conviver diariamente com a figura de porteiros, empregados domésticos, faxineiros, copeiros, pedreiros, jardineiros, entre muitos outros que se deslocam diariamente, em condições inapropriadas, para trabalhar compulsoriamente nas áreas centrais da cidade.

A situação modificou-se durante as décadas de 1990 e 2000, período em que se observou a inversão do fluxo migratório comparativamente aos anos anteriores. Seria um erro acreditar, contudo, que o declínio dos fluxos migratórios inter-regionais significasse diminuição da pressão urbana sobre as cidades e seus habitantes. A diferença é que, enquanto outrora o maior fator impulsionador da expansão urbana era a migração do campo para as cidades, agora o elemento responsável é o crescimento vegetativo da população dentro das próprias cidades. Somente entre os anos 1980 e 2010 a população urbana dobrou de tamanho, passando dos cerca de 80 milhões para 160 milhões de pessoas e representando 64% e 84% da população total do país, respectivamente (Tabela no. 1).

Embora declinante o fluxo migratório intra-regional nos últimos anos, o próprio crescimento vegetativo já é suficiente para fazer com que as novas gerações sintam, por inércia e tempo indeterminado, conforme revelou a teoria da "causação circular e acumulativa" de Myrdal, os efeitos perversos do processo de acumulação e divisão social do trabalho que têm sido adotados no Brasil.

O fato é que o saldo da expansão urbana apresentou contradições e desigualdades econômicas sobre a estrutura social com reflexos espaciais expressos na terrível realidade de cidades cada vez mais inóspitas em termos de moradias, infraestrutura e serviços de utilidade pública insuficientes. De acordo com o Censo Demográfico de 2010, atualmente mais de 11,4 milhões de brasileiros, provavelmente sem instrução e perspectivas, vivem ou sobrevivem em aglomerados subnormais, metade dos quais no Rio de Janeiro, São Paulo e Pará. Sem acesso a terra, essas populações vivem em habitações precárias e de alto risco, em condições de insegurança da posse imobiliária, em bairros primitivos, violentos e fora de padrões mínimos de saneamento e de mobilidade pessoal em declínio, que as obriga viajar horas para chegar aos locais de trabalho.

Em São Paulo, mais de dois milhões de pessoas habitam zonas de proteção ambiental, sobretudo mananciais e Mata Atlântica, margens de represas e de rios e cifra superior a cem mil vive em áreas de alto risco. Os terrenos de periferia ou favelas existentes são mercados de violência, ocasionando, direta ou indiretamente, crimes atrozes pela posse da terra. As áreas centrais ficam, em contrapartida, cada vez mais valorizadas e restritas ao usufruto de minorias de maior renda e poder, e evidenciam a desigualdade sócio-espacial predominante do processo de concentração do capital e manutenção dos baixos salários no país.

Tal padrão de urbanização se repete sem grandes alterações. De um lado os investimentos em infraestrutura concentrados nos centros urbanos, altamente desenvolvidos e ocupados pelo topo da sociedade, como nos bairros jardins, que foram planejados pela antiga companhia City, em São Paulo, ou as residências no Lago Sul de Brasília. O outro é o que provoca o deslocamento dos segmentos mais pobres a condições urbanas precárias e distantes das áreas em que há especulação fundiária, o das "periferias urbanas", como as regiões de Franco da Rocha e Perus, na Região Metropolitana de São Paulo, ou Jacarezinho e Morro do Alemão, no Rio de janeiro, além de muitas outras, que estão abandonadas, esquecidas sob a forma de favelas e cortiços nas cidades dos mais variados portes espalhadas pelo país.

Quanto à expansão da classe C, às avessas, engana-se quem acreditar ser repleta a melhoria das condições de vida da população de baixa renda nas grandes cidades, como "vende" à sociedade alguns dos principais meios de comunicação no país, através de mensagens fictícias e fantasiosas que são transmitidas durante a sua programação na TV.

Na matéria intitulada "De repente, classe C", publicada em 15/07/2012 no Jornal Folha de São Paulo, o estudante de letras da Universidade de São Paulo, Leandro Machado, de 23 anos, morador do município Ferraz de Vasconcelos, na zona leste da Região Metropolitana de São Paulo, relata as dificuldade que a "nova classe média" urbana permanece a enfrentar no dia-a-dia. "Eu e minha nova classe média somos as celebridades do momento (...) Há empresas, publicações, planos de marketing e institutos de pesquisa dedicados a investigar as minhas preferências (...) as telenovelas agora têm empregadas domésticas como protagonistas, cabeleireiras como musas e até personagens ricos que moram em bairros mais ou menos como o meu. A diferença é que nesses bairros, os da novela, não há ônibus que demoram duas horas para passar nem buracos na rua (...) levo 2h30 para chegar ao trabalho porque o trem quebra todos os dias, meu plano de saúde não cobre minha doença no intestino e morro de medo das enchentes do bairro. Ou seja, ao mesmo tempo que todos querem me atingir por meu razoável poder de consumo, passo por perrengues do século passado. Eu e mais 30 milhões de pessoas – não somos pobres, mas da classe C".

Com o passar do tempo a experiência urbana parece ter melhorado as formas de organização nas cidades. Contudo, como mencionou Vilmar Faria (1988) a respeito das fragilidades dos moradores das periferias, isso "não diminuiu o peso do desenraizamento, de ausência, de ligações de solidariedade mais profundas, da solidão, do preconceito e do anonimato" nas cidades. As distorções continuam enormes, e a vulnerabilidade crescente nas periferias urbanas. O fato é que as políticas habitacionais nas áreas mais distantes e sem infraestrutura levam à armadilha da valorização nas áreas intermediárias, o que afasta a população que recebe mais baixos salários para locais ainda mais longínquos e inóspitos tornando as desigualdades sócio-regionais ainda mais perversas e exclusivas.

4 de ago. de 2012

Desequilíbrios regionais e a origem do processo de urbanização nas cidades do Brasil (parte 3)

Alguns mitos dificultam uma discussão profunda sobre os desequilíbrios regionais no Brasil, especialmente quanto às causas do processo de expansão desordenada dos principais pólos regionais do país. Esse post tem como foco a análise do processo de "arrebentação" urbana presente em grande parte do território nacional e seus desdobramentos na configuração sócio-espacial dessas regiões.

O primeiro equívoco, presente em algumas análises, é o de achar que uma simples menor densidade geográfica industrial, comercial, ou bancária é o elemento responsável por gerar desequilíbrios regionais pelo país. E ela de fato pode ser uma causa, sob a ótica neoclássica. Essa situação consiste apontar que é mais provável que investimentos e serviços públicos sejam direcionados para locais mais próximos aos aglomerados industriais, já que estes tendem a ser mais competitivos e a concentrar mais capital em comparação às demais regiões, dentro e fora do país. Embora essa seja uma razão para a causa dos desequilíbrios, do ponto de vista da economia regional, trata-se de um processo que não leva em conta a distribuição da riqueza ali gerada, responsável por acentuar o grau de pobreza de parcela significativa da população residente no entorno dessas localidades.

Há também interpretações equivocadas que afirmam serem os "vazios" remanescentes do território nacional áreas que poderiam servir para absorver grande parte do "excedente" populacional do país. As extensões rurais inexploradas espalhadas na imensidão do território brasileiro se tornariam, nessa condição, amplos assentamentos espacialmente ordenados e formados por pequenas propriedades que serviriam para receber e dar condição de fixação a desalojados vindos de toda a parte. Mas a apropriação dos territórios pelo capital especulativo em detrimento das pequenas propriedades rurais, a intensificação da mecanização no campo, o êxodo rural e até mesmo os superávits comerciais do país, pautados não mais do que por commodities agropecuárias e minerais produzidas por grandes proprietários, são algumas das evidências do processo.

As políticas de reforma agrária nunca ofereceram condições para fixação do homem ao campo, aumentando ainda mais a ilusão do desenvolvimento através da via fundiária. Trata-se, portanto, de fenômenos totalmente distintos: o ideal inclusivo, cuja intenção é oferecer condições para redistribuição pacífica da propriedade da terra à população de baixa renda que vive nas cidades e; a realidade perversa, como no nosso caso, decorrente das condições desfavoráveis para inclusão desse contingente mal orientado a terra. Soma-se a isso o fenômeno da especulação fundiária, basicamente provocada pela concentração e sobreposição do capital financeiro às propriedades rurais nas diversas regiões do país.

Artista desconhecido


Concentração industrial no Brasil

Após quatro séculos vivendo com base no modelo agro-exportador, a economia brasileira sofreu, na década de 1930, pela primeira vez, a modificação do seu centro dinâmico, agora voltado para atender ao mercado de consumo interno. A etapa da "industrialização restringida" estendeu-se até a primeira metade dos anos 1950 e consolidou a fase que a indústria paulista “polarizou” as atividades oriundas da periferia nacional. O pioneirismo da indústria paulista no mercado nacional e o seu "forte campo de força" em relação às outras regiões do país levou à criação da lógica "centro-periferia nacional", na qual o Brasil deixa de ser um "arquipélago regional" sob hierarquia da indústria paulista, que conquista papel e importância similar àquela que era mantida pelo mercado externo, o que garantiu maior estabilidade à economia nacional, já não mais dependente apenas da venda de insumos ao exterior.

As especializações regionais só foram verdadeiramente iniciadas a partir do Segundo Governo Vargas (1951-54) e intensificaram-se a partir do Plano de Metas (1955-1960), primeiros planos de desenvolvimento integrados do mercado nacional, ou "projetos nacionais desenvolvimentistas". A medida priorizou inversões para bens de consumo duráveis e de produção na região centro-sul, que continuou a concentrar os capitais do país, enquanto na periferia nacional foram feitos investimentos basicamente na produção de bens intermediários, na ampliação da infraestrutura de acesso local e na indústria pesada, mas pouco absorveu o estoque de empregos da região. Atribui-se às superintendências regionais de desenvolvimento criadas na década de 1960 o empenho feito para absorver o capital também às periferias nacionais, cujo crescimento econômico caminhava, nesse período, pari passu ao da economia paulista.

Os dados comprovam que entre os anos 1956 e 1970, durante fase conhecida como industrialização "pesada", a indústria paulista apresentou as mais altas taxas de crescimento do país sendo seguida pelo crescimento positivo de todas as demais regiões do país. Em 1959 a indústria paulista crescia 178% em relação à década anterior (1949) e representava 55% de todo o Valor de Transformação Industrial (VTI) do país, ante o crescimento de 112% na média das demais regiões no mesmo período. Em 1970, apesar de crescer apenas 75% em relação a 1959, abaixo dos 100% registrados pela média entre as demais regiões, a indústria paulista ainda impulsionava o crescimento das periferias nacionais. Não é por menos que a indústria paulista concentrava 58% do VTI do país nesse mesmo período, dado que só veio a decrescer a partir da década seguinte (Tabela no. 1).


Tabela no. 1 – Indústria de Transformação: índice de crescimento do produto real e valor das regiões no Valor da Transformação Industrial
Fonte: CANO, 2007, p. 101, 337; CANO, 2008, p. 50; baseado em FGV (1939-1980); IBGE-CR (1985-2004); IBGE-Censo Industrial (vários anos).
*Norte: inclui TO a partir de 1980.
** Inclui Guanabara (GB) até 1970.
*** CO: inclui TO em 1939-1985; inclui DF a partir de 1970.


Desequilíbrios regionais

Berço de maior oferta de empregos, formalização do trabalho e salários médios mais altos, a mão-de-obra da periferia nacional era "atraída" aos montes aos pólos regionais, sobretudo às capitais, com a certeza da existência de oportunidades de emprego nas fábricas, no comércio e serviços urbanos, e na construção civil. Soma-se a isso o fenômeno da "expulsão" dessas famílias de retirantes do campo para as cidades, reflexo do êxodo rural que se acentuava, por sua vez, em razão da maior acumulação do capital fundiário e do aumento da mecanização no campo. A migração inter-regional passou de 4,3 milhões de pessoas, em 1950, para 12 milhões, em 1970, ampliando o "caos urbano" nas principais cidades do Brasil.

O aumento do contingente populacional nas cidades e a modificação das suas estruturas produtivas internas levaram, além disso, ao surgimento de novas relações de trabalho e de estratos sociais típicos dos pólos industriais no Brasil. Esse novo padrão de sociabilidade foi formado a partir de uma estrutura social diferenciada e segmentada, dotada de hábitos de vida peculiares às estruturas urbanas brasileiras. Dessa divisão provêm estratos ocupacionais de rendas muito elevadas – que perfazem o topo da sociedade – uma "classe média" urbana – constituída por um contingente de trabalhadores assalariados – e, a base da sociedade – formada pela massa de subempregados pobres.

O crescimento desordenado das cidades, grandes e médias, o aumento da segregação espacial, a especulação imobiliária e a "periferização" dos assentamentos urbanos explicam a decisão do Governo nacional em implementar, nos anos 1960 e 1970, os programas federais de desenvolvimento com vistas a minimizar os desequilíbrios regionais pelo país. Além das já mencionadas superintendências regionais, estruturaram-se esforços para a criação da Zona Franca de Manaus, além do Plano de Ação Econômico do Governo (PAEG) e do II PND. O primeiro que continha reformas monetárias dirigidas aos problemas das cidades, como o Banco Nacional da Habitação (BNH) e, o segundo, que buscava elevar o país a potência mundial. Todos eles colaboraram, no entanto, com o processo de "desconcentração produtiva" que caracterizou as décadas seguintes no Brasil e que ficou marcado pelo deslocamento espacial das atividades dinâmicas e dos fluxos migratórios do centro para a periferia nacional.


Crise fical e financeira do estado e medidas noliberais

Outra dimensão da desconcentração produtiva, não menos importante, trata da questão da localização de investimentos, sejam eles estrangeiros ou nacionais, a partir da intensificação do processo da "guerra fiscal". Intensificada após os anos 1990, após o fim dos efeitos das políticas regionais, já extintas, o fenômeno da guerra fiscal residia na tomada de decisões desintegradas entre os estados nacionais no que diz respeito aos descontos no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) gerado pelas empresas e evidencia as verdadeiras manobras de financiamento público de interesse privado, mascaradas de políticas fiscais expansionistas feitas pelas administrações regionais no país.

O fato reside na "hipermobilidade" dos capitais privados das empresas multinacionais, que se aproveitam da boa oportunidade para transferir suas unidades produtivas a essas áreas, apropriando-se, ainda, do baixo valor da mão-de-obra que reside nessas regiões. Além do processo de acumulação propriamente dito, os desequilíbrios regionais são determinados, portanto, também pela manutenção do baixo valor da mão de obra, processo que ficou conhecido como "urbanização com baixos salários", termo usado por Ermínia Maricato (1996), determinantes da expansão urbana nas cidades do Brasil.

O próximo post analisará os impactos da urbanização nas cidades do Brasil e apresentará os efeitos perversos da lógica da experiência urbana brasileira nos últimos 50 anos, marcada por desequilíbrios sócio-espaciais e maior pressão sobre as áreas metropolitanas no país. Apesar da melhoria da renda destinada a classe C, tudo não passa de uma ilusão, cujas melhorias só são mesmo vistas em propagandas, ou nas novelas da televisão.

Até lá.
Rodrigo

31 de jul. de 2012

A formação regional no Brasil: território e sociedade (parte 2)

Esse posts discute a formação espacial do território brasileiro a partir da ótica da acumulação do capital em suas múltiplas formas – mercantil, industrial, financeiro e fundiário – e das relações entre as forças produtivas ao longo dos séculos no país. Sua análise levará ao entendimento sobre o surgimento da urbanização no território brasileiro nos anos 1930, provocados pelos desequilíbrios regionais que se intensificam no país e, sobretudo pelo aumento dos fluxos migratórios aos seus principais pólos de crescimento, principalmente São Paulo.

A formação do território brasileiro foi fortemente marcada pela colonização ultramarina européia ocorrida no século XVI no nordeste do país, quando teve êxito o cultivo da cana de açúcar. Apoiado na exploração do trabalho escravo de origem africana, o produto agrícola tornou o Brasil uma espécie de "empresa agrícola" da metrópole portuguesa. Junto à economia açucareira surgiu a criação de gado que se estendeu ao Maranhão, além da atividade de caça ao índio, que se formava nas colônias de povoamento onde o açúcar não tinha sucesso, como no Planalto do Piratininga, onde surgiram policulturas de subsistência com base na exploração da força de trabalho indígena.

Com a decadência da economia açucareira no século XVII, que sofria forte concorrência da produção das ilhas inglesas e francesas do caribe, após a expulsão dos holandeses do território brasileiro, a única saída à metrópole portuguesa era a busca de metais preciosos pelo interior inexplorado do território brasileiro. Este feito foi conquistado com o apoio das bandeiras que partiam do território paulista em busca do ouro na região de Minas Gerais. Formou-se ali a primeira grande expansão migratória de que se teve notícias ao interior do país. O declínio da produção extrativa e dificuldade de reposição da mão-de-obra escrava já no final do século XVIII levaram a economia mineira ao declínio e sua numerosa população local fixou-se nesse território basicamente em regime de subsistência.


Surgimento do café
Enquanto a economia do nordeste mantinha-se com a produção algodoeira no Maranhão, que servia ao abastecimento da atividade industrial inglesa, o café surgia em meados do século XIX no Rio de Janeiro para atender ao mercado de consumo interno – que já contraíra novos hábitos após a chegada da corte portuguesa na primeira metade do século anterior – e torna-se uma nova fonte de riqueza ao país. A falta de terras férteis no Vale do Paraíba fez, contudo, a produção avançar à fronteira agrícola em direção a São Paulo. Foi a partir de então que o território paulista começou a ser desbravado mais intensamente através do novo processo de acumulação do capital mercantil que foi beneficiado, por sua vez, da recém chegada da mão-de-obra livre de imigrantes, principalmente de origem européia.

A transformação das estruturas produtivas ocorreu nessa época graças à “acumulação do excedente” e à diversificação do capital cafeeiro em atividades diretas e indiretas ligadas ao setor. Entre as principais componentes do complexo que permitiram tais mudanças estavam: a atividade produtora de café; alimentos e matérias primas; atividades industriais (beneficiamento do café, sacarias, têxtil), infraestrutura (armazéns, portos, transportes e comunicações); implantação e desenvolvimento do sistema ferroviário paulista; expansão do sistema bancário e do comércio externo.


Acumulação do excedente
A ampla acumulação do capital cafeeiro tem início nos anos 1830, quando o café se torna o principal produto da pauta exportadora no Brasil. Em 1885, o Estado de São Paulo já era responsável por 40% do total da produção do café do país. Nessa mesma época também tem grande expressão o ciclo econômico da borracha na Amazônia, estruturado com base na exploração do grande contingente populacional vindo do nordeste do país. O declínio da produção da borracha ocorrera, em contrapartida ao que ocorria com a economia paulista, ainda no final desse mesmo século, após a sua primeira crise de preços, levando a região à decadência.

Expandindo-se com base no principal produto de exportação, o café, que garantia as condições de reprodução do capital mercantil, as variáveis do complexo foram fundamentalmente importantes para garantir as condições para a diversificação do capital cafeeiro em outros ramos industriais. Além do movimento migratório e da abundância de terras, foram importantes ao seu desenvolvimento os saldos comerciais positivos com o exterior e com o resto do país, além das políticas econômicas levadas a cabo no período, com destaque às políticas de defesa e valorização do preço do café. Em 1919 a indústria paulista atingia grau de complexidade suficiente para substituir a corrente de importados europeus interrompida durante a I Guerra Mundial (1914-1919), possibilitando-lhe reagir com mais eficácia à crise de 1929. Entre às principais indústrias que surgiram nesse período estavam: mecânica, material elétrico, transportes e química.


Urbanização
É justamente nesse momento que se inicia o processo de expansão da área urbana na cidade de São Paulo, fenômeno marcado pelo inicio da verticalização das edificações, do uso dos elevadores, da expansão dos serviços de saúde, educação, saneamento, alimentação e transportes, resultados também sentidos com o aumento do fluxo migratório aos principais pólos regionais do país.

O próximo post tratará do processo de urbanização do espaço brasileiro a partir do período característico da "industrialização pesada" (1955 – 1970), esta que foi capitaneada pelo estado de São Paulo, para onde migravam intensos fluxos populacionais no período.


Até lá.

Rodrigo

30 de jul. de 2012

O debate sobre economia regional: um breve resumo (parte 1)

A economia espacial é um dos ramos mais recentes das ciências sociais e tem sido objeto de ampla discussão, com enfoques diferenciados no que se refere ao estudo das variáveis tradicionais estudadas nas ciências econômicas, que se limitam à investigação de teorias do equilíbrio geral das funções de oferta e demanda, dos coeficientes constantes e dos custos de transporte lineares.

O debate remonta a "ciência regional" (regional science), disciplina que se consolida no momento do pós II Guerra Mundial, quando a preocupação com os problemas da gestão do espaço tomam maior consciência na sociedade, tornando-se referência na análise das políticas de ordenemanto territorial, com vistas à constituição de sociedades mais justas e prósperas sobre os destroços da guerra.


O que vem a ser ciência regional?
Segundo essa vertente, a ciência regional (ou economia espacial) é uma disciplina multidisciplinar que incorpora variáveis de diferentes campos da investigação social e dedicam-se a responder os questionamentos sobre as desigualdades e desequilíbrios espaciais presentes a partir da intervenção humana no território.

O problema a que se propõe a investigação da ciência regional é justamente o de que não existe homogeneidade espacial, em detrimento da análise dos agentes em espaços como pontos dados. Sua investigação é resultado, ao contrário, da análise dos objetivos e interesses dos grupos dispersos em diferentes pontos e com características distintas no espaço. A ciência regional introduziu a noção do espaço às teorias existentes obrigando-as a ultrapassar suas simples generalizações ao considerar e incluir novos parâmetros em jogo.


As novas funções da variável espacial
A associação da variável espacial a esta formulação eclodiu em uma nova tônica à análise econômica. O espaço passou a ser visto como um reflexo territorial das relações de produção na sociedade, ou seja, um lugar, com características, legados e valores específicos, em detrimento das teorias clássicas da localização ótima das atividades econômicas, ou modelos locacionais, como uma barreira em distância a ser percorrida, que incorria no incremento do custo adicional de transporte ao preço das mercadorias.

Nas décadas de 1950 e 1960 os estudos desdobraram-se sobre as perspectivas das políticas de ordenamento e crescimento urbano e regional de vanguarda francesa, com destaque à teoria dos "pólos de crescimento" de F. Perroux. As preocupações com a natureza e com o meio ambiente no pensamento espacial só foram admitidas a partir dos anos 1970, com evidência à conferência de Estocolmo, que alertava sobre a problemática entre crescimento econômico e preservação ambiental.


Espaço como ente social
O espaço levou tamanha significância à análise das relações de produção num dado território, de caráter social, que novas abordagens conceituais elevaram a importância sobre a interpretação desse objeto, considerado "essencialmente um ente social". De mero receptáculo das relações humanas no território a produto social, o espaço tornou-se predeterminante para o estudo da componente trabalho social.

A interação homem-meio – na qual o meio natural é transformado em meio de subsistência – precede, por sua vez, a relação homem-homem – esta segunda, resultado de uma transformação mais complexa do meio natural em produtos, o que transcende a condição de trabalho individual ao trabalho social. Tanto a relação homem-meio, como a relação homem-homem – sem que se pese a dicotomia entre suas abordagens – são, no entanto, igualmente responsáveis por transformar e determinar a formação econômico-social existente em um território ao longo do tempo sendo considerada, também, como "reflexo" das relações de produção e luta de classes entre as forças produtivas ali presentes.


Abordagens recentes
Nas últimas duas décadas, os trabalhos de Paul Krugman sobre o desenvolvimento das regiões têm influenciado o pensamento regional, através de um modelo econômico que relacionou a interação econômica de grupos sociais e o desenvolvimento das regiões. Também têm sido vastas as publicações acerca dos distritos industriais, que se apóiam nas antigas instituições de Marshall, com destaque às aglomerações tecnológicas do Silicon Valley, de pequenas e médias empresas (PMEs) da "Terceira Itália", dos serviços financeiros localizadas nas metrópoles, além, mais recentemente, dos pólos tecnológicos, das redes e da governança.

A abordagem desse post terá continuidade com os outros três que serão publicados nesse mesmo espaço, a respeito das evidências sobre os desequilíbrios sócio-espaciais no Brasil na atualidade. A análise não se dará a partir do entendimento quanto às estruturas locacionais que resultaram da concentração industrial no país. Ao contrário, sua compreensão será possível através da ótica das relações de produção e do padrão da divisão do trabalho gerados ao longo de toda a história do país e nas diversas partes do seu território.

Abraços,

Rodrigo 

14 de jun. de 2012

Quanto vale a natureza?

Realizado em São Paulo no dia 13 de junho pela CBCS (Conselho Brasileiro de Construção Sustentável), o simpósio da UNEP-SBCI (Sustainable Buildings and Climate Initiative), iniciativa ligada ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA ou UNEP, em inglês), reuniu especialistas, profissionais e instituições ligadas ao tema para debater os desafios ligados ao setor da construção civil na atualidade. Intitulado “Eficiência no Uso de Recursos e Economia Verde: Oportunidades para Edifícios e Cidades Sustentáveis”, o evento teve como abordagem os temas Eficiência e Economia Verde reforçando, desse modo, o conjunto de encontros preparativos para a Conferência RIO+20, a ser realizada no Rio de Janeiro nos dias 20 a 22 de junho.

Entre os especialistas presentes teve destaque a participação do economista indiano Pavan Sukhdev, Chefe da Iniciativa em Economia Verde da UNEP e presidente- fundador da empresa de consultoria ambiental GIST Advisory (Green Initiatives for a Smart Tomorrow), que trouxe novas abordagens e elementos para o melhor entendimento sobre o que ele mesmo chamou de “esverdeamento” da economia.

Além dele, participaram do evento representantes do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável , SECOVI-SP , Prefeitura de São Paulo, Secretaria do Verde e Meio Ambiente do Município de São Paulo , Secretaria Nacional de Habitação do Ministério das Cidades, Secretaria da Habitação e Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), Universidade de São Paulo (USP-SP), Centro de Construções Sustentáveis da BCA (Singapura), Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (França), Green Building Council (México), Capital E (USA), entre outros que apresentaram exemplos e práticas adotadas em algumas dessas localidades. Veja programação completa


Abertura

A abertura do encontro foi feita pelo sociólogo e coordenador da Assessoria Técnica e de Planejamento do Sesc São Paulo, Sérgio José Battistelli, que imprimiu tônica ao evento ao convidar o público presente à busca de soluções aos novos desafios do planeta. “Somos protagonistas chamados ao centro do palco para dizer o que vamos fazer para a atual e futuras gerações. A sociedade está em busca de respostas e ferramentas aos novos desafios econômicos, principalmente em relação aos impactos ambientais e ecológicos devastadores causados pela intervenção humana nas cidades e centros urbanos. A sociedade precisa questionar os antigos paradigmas e modelos de produção, investindo em outros mais inclusivos e menos danosos ao meio ambiente”, completou.

Foi Arab Hoballah, no entanto, Chefe de Consumo e Produção Sustentáveis da Divisão de Tecnologia, Indústria e Economia da UNEP, quem trouxe o atual problema das cidades ao centro do debate. De acordo com Hoballah, “as cidades não são ilhas isoladas, mas, pelo contrário, são territórios que guiam ao crescimento da economia, causando uma série de impactos desastrosos ao meio ambiente. Sendo responsáveis pelas mudanças no contexto mundial que afetam a sustentabilidade do planeta, elas devem incorporar, portanto, novos modelos de construções, transportes e manejo de resíduos, todos fundamentais à sua manutenção ao longo do tempo”. Outro tema destacado foi a relação entre Economia Verde e emprego, a saber que milhares de postos de trabalho poderão ser gerados a partir do uso de “tecnologias verdes”. “Construções sustentáveis geram benefícios no mundo e nos mercados reais”, concluiu ele.

Logo em seguida e abordando a importância da sinergia entre os atores da cadeia produtiva da construção civil para busca da sustentabilidade, Marcelo Takaoka, presidente do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, concentrou-se nas implicações da atual fragmentação entre os agentes do setor. “É importante aumentar a sinergia entre os stakeholders e os governos. Trata-se de um jogo ganha-ganha”. Segundo Takaoka, se o setor da construção não for pró-ativo continuará à mercê das antigas legislações e da pouca ousadia dos governos, que mal abordam as possíveis ações a serem feitas em prol da sustentabilidade. Completa que “se o governo for mais agressivo, aumentará a formalidade do setor da construção civil”.

Na breve passagem pelo evento, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, concentrou-se em agradecimentos a parceiros presentes e fez uma breve menção sobre os temas ali discutidos. “O assunto em pauta tem muita relevância para as cidades, sobretudo para oferecer a nós todos conforto e ganho de eficiência”, disse ele.

Convidando o público a uma reflexão, Cláudio Bernardes, presidente da SECOVI-SP (Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo), indagou sobre a necessidade de melhor planejamento para o desenvolvimento das futuras cidades sustentáveis, justamente em um momento em que a população mundial é majoritariamente urbana. De acordo com os dados do estudo World Urbanisation Prospects, atualizado periodicamente pelo Departamento de Economia e Relações Sociais da ONU, há atualmente 50% da população mundial vivendo em áreas urbanas, mas que consome 60-80% de energia, assim como é responsável por 75% das emissões de carbono. A estimativa é de que ela chegue a 80% em 2030, conforme dados apresentados. “Não há problema que existam muitos carros na cidade. O problema é que eles estejam na rua", provocou Bernardes. Entre os principais questionamentos levantados por ele estão: “Como garantir de forma economicamente viável modelos de produção que resultem melhores empregos? Como a Economia Verde se concentra na interseção da economia? Que tipo de cidades devemos discutir? Como aglutinar a população e adotar medidas que lhe assegure qualidade de vida?”


Palestra Magna

Convidado para ministrar a palestra magna do encontro, Pavan Sukhdev, Chefe da Iniciativa em Economia Verde da UNEP e presidente-fundador da consultoria GIST Advisory, abordou as possibilidades de transição do atual modelo de produção para um sistema econômico sustentável. Ao avaliar os prejuízos causados pela destruição do meio ambiente, Sukhdev sugeriu uma nova sistemática de produção com base, sobretudo pelo fim da invisibilidade econômica do meio ambiente. “Não se trata de colocar um preço sobre o valor da natureza, até porque a abelha não passa um recibo quando produz o mel, mas ampliar a consciência dos agentes econômicos para o custo dos impactos sobre o capital natural e social”, explica Sukhdev. “Em verdade nós estamos monetizando a natureza só que da pior maneira possível. Por causa da invisibilidade econômica do meio ambiente, nós estamos atribuindo um valor igual a zero à natureza”, argumenta.

Segundo o economista, o foco da Economia Verde é desenhar as transformações nos setores críticos que levem ao “esverdeamento” da economia global. “Trata-se da criação de estratégias viáveis para a concepção de regulações específicas, subsídios, taxas, e reformas relacionadas, além de investimentos públicos e privadas em tecnologias e infraestrutura que tragam baixo ônus ao meio ambiente”. Entre os setores e áreas de estudo foram priorizados: agricultura, construção civil, energia, pesqueiro, silvicultura, indústria, turismo, transporte, lixo e água. Informações detalhadas podem ser acessadas diretamente na página sobre Economia Verde da UNEP.

Para o setor da construção civil, a mensagem é clara. “É importante reforçar a análise do ciclo de vida dos produtos e sistemas empregados em obras, bem como ampliar a preocupação dos empreendedores com as normas de desempenho e critérios sustentáveis, a exemplo da certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) e selo AQUA (Alta Qualidade Ambiental), a fim de que possa ser incentivada a criação de ambientes saudáveis e com mais conforto, e que possam gerar milhares de empregos”. Entre os principais resultados esperados com Economia Verde, Sukhdev destacam-se os benefícios para a saúde, a criação de empregos, a melhoria da eficiência energética e do uso de recursos, além da grande produtividade e capacidade de inovação com baixo custo e impactos ambientais reduzidos. Segundo ele, “a cada US$ 1 milhão investidos em Economia Verde são criados de 10 a 14 empregos diretos e outros 3 a 4 indiretos”, concluiu.


Próximos passos

A sociedade está ávida por novos modelos e comportamentos de consumo, mais conscientes, interligados e inclusivos. O espaço para mudança é enorme mas, para isso, é importante que governos, empresas e a sociedade civil mobilizem-se para estimular e pressionar a oferta de produtos e soluções mais eficientes e com baixo impacto ambiental.

Os antigos modelos econômicos, galgados em coeficientes e racionalidades lineares, já não servem à realidade e estão a caminho do esgotamento. Território e ambiente ganham força na nova dinâmica da sociedade, mais complexa, exigente, e preocupada com o meio em que vive. Não há interesse e maneira de voltar atrás. A sustentabilidade já é realidade em muitos países e veio para o Brasil para ficar, estimular novos hábitos e novas formas de relação entre o homem e o espaço.

Perderá quem não quiser enxergar, mas a vida no planeta tente a mudar. Se o planeta clama por cuidado, ganhará com ele apenas quem souber escutá-lo. Mas se ele não fala, a única possibilidade é mesmo senti-lo. Mas se ainda isso não for possível a todos, o mínimo a fazer é respeitá-lo, só isso.

 

Abraços,
 
Rodrigo

14 de mai. de 2012

Morador de centro urbano nasce consumidor antes de cidadão

Decorrente do inchaço das grandes e médias cidades no Brasil, o processo de urbanização territorial não tem causado apenas pressão sobre a oferta de serviços públicos para seus moradores – privando-os do direito ímpar à cidadania –,  como tem induzido a "decisão compulsória de compra" dos indivíduos, que já nascem consumidores antes mesmo de serem cidadãos.

Extrapolando ao entendimento dos atos que constam no art. 5º. da Constituição de 1988, que "garante aos brasileiros e estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)", a própria etimologia da palavra cidadania, do latin civitas, cidade, reunião de cidadãos, traz uma explicação muito mais consistente ao termo, sendo o habitante da cidade, nesse contexto, o sujeito da ação, em contraposição ao sujeito omisso e entregue a si mesmo.

Essa condição precede, contudo, não apenas do processo de concentração e apropriação de terras no país, a partir dos anos 1930, mas também pela intensificação e modernização tecnológica no meio rural, sobretudo a partir dos anos 1970, ocasionando a expulsão de grandes fluxos migratórios do campo para as cidades, berço de maior oferta de empregos, formalização do trabalho e salários médios mais altos, como bem destacou  o músico pernambucano Chico Science, em 1994, na letra intitulada "A cidade", do disco Da Lama ao Caos, de coautoria da banda de manguebeat Nação Zumbi.

"A cidade se encontra prostituída
Por aqueles que a usaram em busca de saída
Ilusora de pessoas de outros lugares
A cidade e sua fama vai além dos mares
No meio da esperteza internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos.
A cidade não para, a cidade só cresce,
O de cima sobe e o de baixo desce".

A Cidade, Chico Science e Nação Zumbi (Da Lama ao Caos, 1994)



Soma-se a isso, de tamanha importância para compreender tal fenômeno, o processo de escamoteamento da política de reforma agrária implementada desde os anos 1960 no país. Com o objetivo de levar "excedentes populacionais" a um imenso vazio de terras não produtivas e dominadas por capitais especulativos, as políticas de reforma agrária nunca ofereceram condições para fixação do homem ao campo, aumentando ainda mais a ilusão da inclusão produtiva, a exemplo do afirmou Xico Graziano no excelente artigo intitulado "Ilusão agrária", publicado em 1º. De Maio, Dia do Trabalho, no jornal Estado de São Paulo.

"O pecado capital da reforma agrária, ao se pretender contemporânea, foi achar que poderia transformar desempregados urbanos em prósperos agricultores. Utopia urbana, não vingou. (...) O distributivismo agrário, impulsionado pelas invasões de terras, passou a representar uma ideia atrasada e ineficaz, remédio vencido contra a pobreza. Não resolve oferecer um lote de terra a gente inábil que, distante e desorientada, abocanha as verbas iniciais do Incra, compra um carro velho e se manda de volta à procura de emprego" (GRAZIANO, 2012, on line).

O aumento do contingente populacional nas cidades e a consequente modificação das suas estruturas produtivas internas levaram, por sua vez, tanto à explosão intraurbana em direção às periferias metropolitanas, constituídas por novos aglomerados urbanos, como ao surgimento de novas relações sociais e de trabalho, dotadas de padrão e hábitos de vida peculiares às estruturas urbanas e que culminaram, por sua vez, com o surgimento da chamada "classe média urbana".

Responsável pelo padrão de consumo que conhecemos, a classe média urbana fez surgir um modo de vida peculiar nas cidades. Nelas, o modelo de sociabilidade passava a ser regido por relações de interesse genuinamente comerciais e cada vez mais individualistas antes mesmo de estar voltada ao interesse de convívio coletivo que lhe representaría o espírito de nação.

Com rigor, a cidadania não combina com individualismo e com omissões individuais frente aos problemas da cidade. Nesse contexto, o Brasil parece ser uma país antes de ser uma nação e, no que toca à sua classe média, pouco instruída e, portanto, sem consciência cidadã, não lhe cabe outra coisa se não consumir.

Brasil é ponto de investimento forte no foodservice.


Com as melhores condições de vida, mais pessoas trabalhando e a classe média aumentando, o Brasil se tornou um dos principais países para o investimento nos serviços de delivery e Foodservice de uma maneira geral.

Unidades fixas de franquias.


O crescimento do número de shoppings no Brasil é outro fator que cooperou para o aumento da demanda na área de foodservice no país, principalmente em cidades movimentadas pelos negócios como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. As redes de franquias investem em novas lojas e obtém um retorno maior  nos últimos anos.
Outro ponto levantado por alguns estudos da área é que os consumidores cada vez mais saem do país e conhecem redes de alimentação em modelo de franchising internacionais, o que estimula a vinda das mesmas para o Brasil. De certa forma, isso aconteceu com redes como o Starbucks, onde boa parte dos consumidores começaram a utilizar a loja principalmente pela sensação de estarem fora do país, o que hoje ainda acontece, mas também por conta da simpatia pelos produtos e pela franquia em si. Além disso, também pelo aumento nas viagens tanto nacionais quanto internacionais, as grandes redes de franquia estão agora investindo nestes pontos de partida e chegada, como os aeroportos e terminais de ônibus. Os custos neste tipo de lugar são mais baratos no geral, principalmente pela falta de opção. Mais pessoas optam por um restaurante específico por não terem outra opção disponível no mesmo espaço.
Em grandes cidades como São Paulo, o custo para ter lojas em grandes áreas da região metropolitana é muito alto, o que diminui a compra de espaços por grandes redes para a implementação de outra estratégia muito eficaz de venda que é a do Drive-thru. Com certeza o melhor mercado para se investir é o de franquias fixas, tanto em shoppings como em aeroportos e avenidas. No caso dos aeroportos e terminais, assim como mencionamos anteriormente, o crescimento é o maior esperado, cerca de 30% a 35% principalmente por conta dos eventos internacionais como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpiadas de 2016.

Mercado de foodservice delivery.


Outro mercado de investimento forte no foodservice é o de entregas a domicílio, o delivery. Ainda maior em rendimento que o mercado físico de franquias, o delivery tem um aumento substancial nos últimos anos. As pessoas estão trabalhando mais, preferem não perder tanto tempo cozinhando ou saindo do escritório, então acabam pedindo comida. Atualmente já existem inclusive empresas especializadas nos serviços de entrega, deixando essa parte como um terceirizado do restaurante.
Esse mercado cresceu 15% em 2010 e tem um aumento ainda maior nos últimos anos. Ainda que as pizzas sejam as líderes no setor de comida delivery, outras redes também estão se esforçando para atender os consumidores em suas casas. A China in Box por exemplo, opera praticamente 100% baseada no delivery, suas lojas físicas não são nem 1% do faturamento da empresa. A América Latina, e principalmente o Brasil, se tornaram um dos principais pontos de investimento em serviços relacionados a internet. O mercado está crescendo e ainda tem muitas oportunidades, até por isso os serviços de delivery de comida pela internet também crescem.
Neste mercado, o panorama é mais abrangente. Atualmente as líderes de mercado, principalmente pelo pioneirismo, são o Restaurante Web e o iFood. Um diferencial que essas empresas sempre trazem é a possibilidade de acessar os detalhes de seu pedido e também de se fazer um novo pedido pelas plataformas móveis por meio de aplicativos para Android e IOS. O mercado móvel brasileiro está crescendo muito, por isso o investimento nesse tipo de plataforma faz toda a diferença.
Apesar de já existirem essas empresas especializadas no serviço na internet, existem outras que estão entrando no mercado em busca de mais consumidores e de uma diferenciação da marca. É o caso por exemplo da Jánamesa, que faz parte de um grupo alemão e que entra com tudo no mercado brasileiro. Assim como eles, muitos entram no mercado delivery em busca dessa diferenciação, a qual ainda não chegou diretamente aos brasileiros, principalmente por que nenhuma dessas empresas ganharam o reconhecimento do consumidor. Algum diferencial pode ser visto inclusive na entrega 24hs, as quais muitas estão investindo hoje em parceria com os restaurantes que procuram atender os "baladeiros de plantão", que também são um mercado interessante. No próprio site dessas empresas é possível encontrar esse tipo de informação:"Delivery 24 horas no Brasil", o que também comprova o esforço dessas empresas para atenderem os clientes de maneira mais cômoda e também atingirem um público maior.


Exportação do nosso modelo


O modelo que está sendo implantando internacionalmente é básicamente o que foi criado nos EUA, tanto nas redes de franquia quanto nas de pedidos online. No entanto, as empresas brasileiras da área não querem ficar para trás.
Nestes últimos meses saíram notícias na mídia sobre a expansão de redes especializadas em churrasco e macarrão para países com os mercados saturados, como os EUA, e mesmo assim as franquias estão indo super bem. A churrascaria Fogo de Chão, o grupo Giraffas e o grupo Trigo do Spoleto são exemplos disso.
O modelo das lojas na américa é bem diferente das brasileiras, para atender as necessidades do consumidor local, mas ainda assim tem o carater inicial da franquia brasileira. As lojas adotam um modelo misto de atendimento, são mais espaçosas e alguns ingredientes são modificados. O investimento em outros países costuma ser maior, mas não assusta os empresários brasileiros, os quais apesar de terem custos a mais de cerca de U$300 mil, ainda assim enxergam uma oportunidade ótima de negócios internacionais e projeção de marca.

Fonte: Euromonitor International.

Autor: M. Arantes
Descrição: Blog sobre novidades em finanças, economia e negócios.