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14 de fev. de 2016

O Kapital

O Kapital é massa orgânica que fede,
circuito que gera desequilíbrios e desigualdades.
Ele reina sem juízo,
sem ter prejuízo, mas com um único compromisso.
Tira a vida e coloca o cinza,
colorindo a mente mágica,
dos seres domesticados,
seduzidos com o brilho do feitiço do mercado.
Roda gigante incontrolável,
que devasta por onde passa,
mantendo firme o seu rastro,
castrando sonhos feito um monstro.
Eis que restam os rentistas, a massa, as cartomantes, os consultores e futebolistas.
Não há espaço para o outro,
quando mercadorias assumem papel do povo.

22 de ago. de 2012

Impactos sobre as cidades: o drama das periferias metropolitanas (parte 4 - final)

Decorrente do inchaço populacional das cidades no Brasil, o processo de urbanização territorial tem causado não apenas pressão sobre a oferta dos serviços de utilidade pública para seus moradores – privando-os do direito ímpar à cidadania –, como os têm induzido a montar bases em áreas ilegais e zonas de risco mais afastadas das imediações dos centros urbanos. Esse post trata das evidências da expansão das periferias intra-urbanas localizadas nas regiões metropolitanas do território brasileiro, causadas por um processo de "urbanização difusa", e representadas pelo crescimento demográfico desordenado da população pobre que vive em condições de extrema vulnerabilidade social nas chamadas "manchas urbanas", estas, por sua vez, formadas nos limites de transição rural-urbano existentes nas grandes e, mas recentemente, também nas médias cidades do Brasil.

A realidade da urbanização do país se encontra em posição intermediária quando comparada à dos países da Europa e América do Norte, de um lado, e da situação da Ásia e África, do outro. Em 1950, o Brasil já ostentava o índice de urbanização de 36%, ponto em que os países asiáticos e africanos somente alcançaram no ano 2000. Pelo censo de 2010, a população urbana brasileira atingiu 84%, porcentagem superior a muitos países da Europa ocidental e também dos EUA, cuja média no mesmo período foi de 79% e 82%, respectivamente (Tabela no. 1).

Tabela no. 1 – População total e urbana em países e regiões selecionados (1950-2010)

Fonte: IBGE-SIDRA. Censo Demográfico (vários anos); UN DESA (on line)/ Elaboração do autor.

Durante a etapa intensa da urbanização, entre as décadas de 1960 e 1980, milhões de "retirantes" socialmente segregados migravam das periferias nacionais em ritmo frenético e contribuíam com o aumento da concentração populacional urbana, sobretudo nas regiões metropolitanas, ao redor das quais surgiam inúmeras novas cidades. Tomando o exemplo do estado de São Paulo, o saldo de entradas e saídas de pessoas nesse estado passou de 1,6 milhão em 1970 para cerca de 4,4 milhões em 1980, com destaque à chegada de nordestinos e mineiros ao estado (Tabela no. 2). Apesar dos dados apresentarem elevação do estoque do fluxo de pessoas também em 1991 (5,3 milhões), verifica-se que o aumento apenas na década encerrada em 1980 (2,8 milhões de pessoas) foi muito maior do que no da década seguinte, encerrada em 1991 (913 mil pessoas).
Tabela no. 2 – Movimento migratório inter-regional (a): saldo do fluxo acumulado de entradas e saídas em relação ao estado de São Paulo (1940-1995)


Fonte: CANO, 2007, p. 368-74; baseado em (dados brutos): IBGE. Censos Demográfico (vários anos)/ Elaboração do autor.
(a) Conceito: local de nascimento e residência
*Norte: inclui TO a partir de 1980.
** Representa o total de Piauí à Bahia
*** Inclui Guanabara (GB) até 1970.

As "cidades dormitório", como são chamadas, formam verdadeiros "sistemas urbanos" ligados às áreas metropolitanas nacionais para o centro das quais todos os dias a população pobre se desloca para trabalhar. É comum àqueles que vivem ou trabalham na cidade de São Paulo conviver diariamente com a figura de porteiros, empregados domésticos, faxineiros, copeiros, pedreiros, jardineiros, entre muitos outros que se deslocam diariamente, em condições inapropriadas, para trabalhar compulsoriamente nas áreas centrais da cidade.

A situação modificou-se durante as décadas de 1990 e 2000, período em que se observou a inversão do fluxo migratório comparativamente aos anos anteriores. Seria um erro acreditar, contudo, que o declínio dos fluxos migratórios inter-regionais significasse diminuição da pressão urbana sobre as cidades e seus habitantes. A diferença é que, enquanto outrora o maior fator impulsionador da expansão urbana era a migração do campo para as cidades, agora o elemento responsável é o crescimento vegetativo da população dentro das próprias cidades. Somente entre os anos 1980 e 2010 a população urbana dobrou de tamanho, passando dos cerca de 80 milhões para 160 milhões de pessoas e representando 64% e 84% da população total do país, respectivamente (Tabela no. 1).

Embora declinante o fluxo migratório intra-regional nos últimos anos, o próprio crescimento vegetativo já é suficiente para fazer com que as novas gerações sintam, por inércia e tempo indeterminado, conforme revelou a teoria da "causação circular e acumulativa" de Myrdal, os efeitos perversos do processo de acumulação e divisão social do trabalho que têm sido adotados no Brasil.

O fato é que o saldo da expansão urbana apresentou contradições e desigualdades econômicas sobre a estrutura social com reflexos espaciais expressos na terrível realidade de cidades cada vez mais inóspitas em termos de moradias, infraestrutura e serviços de utilidade pública insuficientes. De acordo com o Censo Demográfico de 2010, atualmente mais de 11,4 milhões de brasileiros, provavelmente sem instrução e perspectivas, vivem ou sobrevivem em aglomerados subnormais, metade dos quais no Rio de Janeiro, São Paulo e Pará. Sem acesso a terra, essas populações vivem em habitações precárias e de alto risco, em condições de insegurança da posse imobiliária, em bairros primitivos, violentos e fora de padrões mínimos de saneamento e de mobilidade pessoal em declínio, que as obriga viajar horas para chegar aos locais de trabalho.

Em São Paulo, mais de dois milhões de pessoas habitam zonas de proteção ambiental, sobretudo mananciais e Mata Atlântica, margens de represas e de rios e cifra superior a cem mil vive em áreas de alto risco. Os terrenos de periferia ou favelas existentes são mercados de violência, ocasionando, direta ou indiretamente, crimes atrozes pela posse da terra. As áreas centrais ficam, em contrapartida, cada vez mais valorizadas e restritas ao usufruto de minorias de maior renda e poder, e evidenciam a desigualdade sócio-espacial predominante do processo de concentração do capital e manutenção dos baixos salários no país.

Tal padrão de urbanização se repete sem grandes alterações. De um lado os investimentos em infraestrutura concentrados nos centros urbanos, altamente desenvolvidos e ocupados pelo topo da sociedade, como nos bairros jardins, que foram planejados pela antiga companhia City, em São Paulo, ou as residências no Lago Sul de Brasília. O outro é o que provoca o deslocamento dos segmentos mais pobres a condições urbanas precárias e distantes das áreas em que há especulação fundiária, o das "periferias urbanas", como as regiões de Franco da Rocha e Perus, na Região Metropolitana de São Paulo, ou Jacarezinho e Morro do Alemão, no Rio de janeiro, além de muitas outras, que estão abandonadas, esquecidas sob a forma de favelas e cortiços nas cidades dos mais variados portes espalhadas pelo país.

Quanto à expansão da classe C, às avessas, engana-se quem acreditar ser repleta a melhoria das condições de vida da população de baixa renda nas grandes cidades, como "vende" à sociedade alguns dos principais meios de comunicação no país, através de mensagens fictícias e fantasiosas que são transmitidas durante a sua programação na TV.

Na matéria intitulada "De repente, classe C", publicada em 15/07/2012 no Jornal Folha de São Paulo, o estudante de letras da Universidade de São Paulo, Leandro Machado, de 23 anos, morador do município Ferraz de Vasconcelos, na zona leste da Região Metropolitana de São Paulo, relata as dificuldade que a "nova classe média" urbana permanece a enfrentar no dia-a-dia. "Eu e minha nova classe média somos as celebridades do momento (...) Há empresas, publicações, planos de marketing e institutos de pesquisa dedicados a investigar as minhas preferências (...) as telenovelas agora têm empregadas domésticas como protagonistas, cabeleireiras como musas e até personagens ricos que moram em bairros mais ou menos como o meu. A diferença é que nesses bairros, os da novela, não há ônibus que demoram duas horas para passar nem buracos na rua (...) levo 2h30 para chegar ao trabalho porque o trem quebra todos os dias, meu plano de saúde não cobre minha doença no intestino e morro de medo das enchentes do bairro. Ou seja, ao mesmo tempo que todos querem me atingir por meu razoável poder de consumo, passo por perrengues do século passado. Eu e mais 30 milhões de pessoas – não somos pobres, mas da classe C".

Com o passar do tempo a experiência urbana parece ter melhorado as formas de organização nas cidades. Contudo, como mencionou Vilmar Faria (1988) a respeito das fragilidades dos moradores das periferias, isso "não diminuiu o peso do desenraizamento, de ausência, de ligações de solidariedade mais profundas, da solidão, do preconceito e do anonimato" nas cidades. As distorções continuam enormes, e a vulnerabilidade crescente nas periferias urbanas. O fato é que as políticas habitacionais nas áreas mais distantes e sem infraestrutura levam à armadilha da valorização nas áreas intermediárias, o que afasta a população que recebe mais baixos salários para locais ainda mais longínquos e inóspitos tornando as desigualdades sócio-regionais ainda mais perversas e exclusivas.

4 de ago. de 2012

Desequilíbrios regionais e a origem do processo de urbanização nas cidades do Brasil (parte 3)

Alguns mitos dificultam uma discussão profunda sobre os desequilíbrios regionais no Brasil, especialmente quanto às causas do processo de expansão desordenada dos principais pólos regionais do país. Esse post tem como foco a análise do processo de "arrebentação" urbana presente em grande parte do território nacional e seus desdobramentos na configuração sócio-espacial dessas regiões.

O primeiro equívoco, presente em algumas análises, é o de achar que uma simples menor densidade geográfica industrial, comercial, ou bancária é o elemento responsável por gerar desequilíbrios regionais pelo país. E ela de fato pode ser uma causa, sob a ótica neoclássica. Essa situação consiste apontar que é mais provável que investimentos e serviços públicos sejam direcionados para locais mais próximos aos aglomerados industriais, já que estes tendem a ser mais competitivos e a concentrar mais capital em comparação às demais regiões, dentro e fora do país. Embora essa seja uma razão para a causa dos desequilíbrios, do ponto de vista da economia regional, trata-se de um processo que não leva em conta a distribuição da riqueza ali gerada, responsável por acentuar o grau de pobreza de parcela significativa da população residente no entorno dessas localidades.

Há também interpretações equivocadas que afirmam serem os "vazios" remanescentes do território nacional áreas que poderiam servir para absorver grande parte do "excedente" populacional do país. As extensões rurais inexploradas espalhadas na imensidão do território brasileiro se tornariam, nessa condição, amplos assentamentos espacialmente ordenados e formados por pequenas propriedades que serviriam para receber e dar condição de fixação a desalojados vindos de toda a parte. Mas a apropriação dos territórios pelo capital especulativo em detrimento das pequenas propriedades rurais, a intensificação da mecanização no campo, o êxodo rural e até mesmo os superávits comerciais do país, pautados não mais do que por commodities agropecuárias e minerais produzidas por grandes proprietários, são algumas das evidências do processo.

As políticas de reforma agrária nunca ofereceram condições para fixação do homem ao campo, aumentando ainda mais a ilusão do desenvolvimento através da via fundiária. Trata-se, portanto, de fenômenos totalmente distintos: o ideal inclusivo, cuja intenção é oferecer condições para redistribuição pacífica da propriedade da terra à população de baixa renda que vive nas cidades e; a realidade perversa, como no nosso caso, decorrente das condições desfavoráveis para inclusão desse contingente mal orientado a terra. Soma-se a isso o fenômeno da especulação fundiária, basicamente provocada pela concentração e sobreposição do capital financeiro às propriedades rurais nas diversas regiões do país.

Artista desconhecido


Concentração industrial no Brasil

Após quatro séculos vivendo com base no modelo agro-exportador, a economia brasileira sofreu, na década de 1930, pela primeira vez, a modificação do seu centro dinâmico, agora voltado para atender ao mercado de consumo interno. A etapa da "industrialização restringida" estendeu-se até a primeira metade dos anos 1950 e consolidou a fase que a indústria paulista “polarizou” as atividades oriundas da periferia nacional. O pioneirismo da indústria paulista no mercado nacional e o seu "forte campo de força" em relação às outras regiões do país levou à criação da lógica "centro-periferia nacional", na qual o Brasil deixa de ser um "arquipélago regional" sob hierarquia da indústria paulista, que conquista papel e importância similar àquela que era mantida pelo mercado externo, o que garantiu maior estabilidade à economia nacional, já não mais dependente apenas da venda de insumos ao exterior.

As especializações regionais só foram verdadeiramente iniciadas a partir do Segundo Governo Vargas (1951-54) e intensificaram-se a partir do Plano de Metas (1955-1960), primeiros planos de desenvolvimento integrados do mercado nacional, ou "projetos nacionais desenvolvimentistas". A medida priorizou inversões para bens de consumo duráveis e de produção na região centro-sul, que continuou a concentrar os capitais do país, enquanto na periferia nacional foram feitos investimentos basicamente na produção de bens intermediários, na ampliação da infraestrutura de acesso local e na indústria pesada, mas pouco absorveu o estoque de empregos da região. Atribui-se às superintendências regionais de desenvolvimento criadas na década de 1960 o empenho feito para absorver o capital também às periferias nacionais, cujo crescimento econômico caminhava, nesse período, pari passu ao da economia paulista.

Os dados comprovam que entre os anos 1956 e 1970, durante fase conhecida como industrialização "pesada", a indústria paulista apresentou as mais altas taxas de crescimento do país sendo seguida pelo crescimento positivo de todas as demais regiões do país. Em 1959 a indústria paulista crescia 178% em relação à década anterior (1949) e representava 55% de todo o Valor de Transformação Industrial (VTI) do país, ante o crescimento de 112% na média das demais regiões no mesmo período. Em 1970, apesar de crescer apenas 75% em relação a 1959, abaixo dos 100% registrados pela média entre as demais regiões, a indústria paulista ainda impulsionava o crescimento das periferias nacionais. Não é por menos que a indústria paulista concentrava 58% do VTI do país nesse mesmo período, dado que só veio a decrescer a partir da década seguinte (Tabela no. 1).


Tabela no. 1 – Indústria de Transformação: índice de crescimento do produto real e valor das regiões no Valor da Transformação Industrial
Fonte: CANO, 2007, p. 101, 337; CANO, 2008, p. 50; baseado em FGV (1939-1980); IBGE-CR (1985-2004); IBGE-Censo Industrial (vários anos).
*Norte: inclui TO a partir de 1980.
** Inclui Guanabara (GB) até 1970.
*** CO: inclui TO em 1939-1985; inclui DF a partir de 1970.


Desequilíbrios regionais

Berço de maior oferta de empregos, formalização do trabalho e salários médios mais altos, a mão-de-obra da periferia nacional era "atraída" aos montes aos pólos regionais, sobretudo às capitais, com a certeza da existência de oportunidades de emprego nas fábricas, no comércio e serviços urbanos, e na construção civil. Soma-se a isso o fenômeno da "expulsão" dessas famílias de retirantes do campo para as cidades, reflexo do êxodo rural que se acentuava, por sua vez, em razão da maior acumulação do capital fundiário e do aumento da mecanização no campo. A migração inter-regional passou de 4,3 milhões de pessoas, em 1950, para 12 milhões, em 1970, ampliando o "caos urbano" nas principais cidades do Brasil.

O aumento do contingente populacional nas cidades e a modificação das suas estruturas produtivas internas levaram, além disso, ao surgimento de novas relações de trabalho e de estratos sociais típicos dos pólos industriais no Brasil. Esse novo padrão de sociabilidade foi formado a partir de uma estrutura social diferenciada e segmentada, dotada de hábitos de vida peculiares às estruturas urbanas brasileiras. Dessa divisão provêm estratos ocupacionais de rendas muito elevadas – que perfazem o topo da sociedade – uma "classe média" urbana – constituída por um contingente de trabalhadores assalariados – e, a base da sociedade – formada pela massa de subempregados pobres.

O crescimento desordenado das cidades, grandes e médias, o aumento da segregação espacial, a especulação imobiliária e a "periferização" dos assentamentos urbanos explicam a decisão do Governo nacional em implementar, nos anos 1960 e 1970, os programas federais de desenvolvimento com vistas a minimizar os desequilíbrios regionais pelo país. Além das já mencionadas superintendências regionais, estruturaram-se esforços para a criação da Zona Franca de Manaus, além do Plano de Ação Econômico do Governo (PAEG) e do II PND. O primeiro que continha reformas monetárias dirigidas aos problemas das cidades, como o Banco Nacional da Habitação (BNH) e, o segundo, que buscava elevar o país a potência mundial. Todos eles colaboraram, no entanto, com o processo de "desconcentração produtiva" que caracterizou as décadas seguintes no Brasil e que ficou marcado pelo deslocamento espacial das atividades dinâmicas e dos fluxos migratórios do centro para a periferia nacional.


Crise fical e financeira do estado e medidas noliberais

Outra dimensão da desconcentração produtiva, não menos importante, trata da questão da localização de investimentos, sejam eles estrangeiros ou nacionais, a partir da intensificação do processo da "guerra fiscal". Intensificada após os anos 1990, após o fim dos efeitos das políticas regionais, já extintas, o fenômeno da guerra fiscal residia na tomada de decisões desintegradas entre os estados nacionais no que diz respeito aos descontos no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) gerado pelas empresas e evidencia as verdadeiras manobras de financiamento público de interesse privado, mascaradas de políticas fiscais expansionistas feitas pelas administrações regionais no país.

O fato reside na "hipermobilidade" dos capitais privados das empresas multinacionais, que se aproveitam da boa oportunidade para transferir suas unidades produtivas a essas áreas, apropriando-se, ainda, do baixo valor da mão-de-obra que reside nessas regiões. Além do processo de acumulação propriamente dito, os desequilíbrios regionais são determinados, portanto, também pela manutenção do baixo valor da mão de obra, processo que ficou conhecido como "urbanização com baixos salários", termo usado por Ermínia Maricato (1996), determinantes da expansão urbana nas cidades do Brasil.

O próximo post analisará os impactos da urbanização nas cidades do Brasil e apresentará os efeitos perversos da lógica da experiência urbana brasileira nos últimos 50 anos, marcada por desequilíbrios sócio-espaciais e maior pressão sobre as áreas metropolitanas no país. Apesar da melhoria da renda destinada a classe C, tudo não passa de uma ilusão, cujas melhorias só são mesmo vistas em propagandas, ou nas novelas da televisão.

Até lá.
Rodrigo

31 de jul. de 2012

A formação regional no Brasil: território e sociedade (parte 2)

Esse posts discute a formação espacial do território brasileiro a partir da ótica da acumulação do capital em suas múltiplas formas – mercantil, industrial, financeiro e fundiário – e das relações entre as forças produtivas ao longo dos séculos no país. Sua análise levará ao entendimento sobre o surgimento da urbanização no território brasileiro nos anos 1930, provocados pelos desequilíbrios regionais que se intensificam no país e, sobretudo pelo aumento dos fluxos migratórios aos seus principais pólos de crescimento, principalmente São Paulo.

A formação do território brasileiro foi fortemente marcada pela colonização ultramarina européia ocorrida no século XVI no nordeste do país, quando teve êxito o cultivo da cana de açúcar. Apoiado na exploração do trabalho escravo de origem africana, o produto agrícola tornou o Brasil uma espécie de "empresa agrícola" da metrópole portuguesa. Junto à economia açucareira surgiu a criação de gado que se estendeu ao Maranhão, além da atividade de caça ao índio, que se formava nas colônias de povoamento onde o açúcar não tinha sucesso, como no Planalto do Piratininga, onde surgiram policulturas de subsistência com base na exploração da força de trabalho indígena.

Com a decadência da economia açucareira no século XVII, que sofria forte concorrência da produção das ilhas inglesas e francesas do caribe, após a expulsão dos holandeses do território brasileiro, a única saída à metrópole portuguesa era a busca de metais preciosos pelo interior inexplorado do território brasileiro. Este feito foi conquistado com o apoio das bandeiras que partiam do território paulista em busca do ouro na região de Minas Gerais. Formou-se ali a primeira grande expansão migratória de que se teve notícias ao interior do país. O declínio da produção extrativa e dificuldade de reposição da mão-de-obra escrava já no final do século XVIII levaram a economia mineira ao declínio e sua numerosa população local fixou-se nesse território basicamente em regime de subsistência.


Surgimento do café
Enquanto a economia do nordeste mantinha-se com a produção algodoeira no Maranhão, que servia ao abastecimento da atividade industrial inglesa, o café surgia em meados do século XIX no Rio de Janeiro para atender ao mercado de consumo interno – que já contraíra novos hábitos após a chegada da corte portuguesa na primeira metade do século anterior – e torna-se uma nova fonte de riqueza ao país. A falta de terras férteis no Vale do Paraíba fez, contudo, a produção avançar à fronteira agrícola em direção a São Paulo. Foi a partir de então que o território paulista começou a ser desbravado mais intensamente através do novo processo de acumulação do capital mercantil que foi beneficiado, por sua vez, da recém chegada da mão-de-obra livre de imigrantes, principalmente de origem européia.

A transformação das estruturas produtivas ocorreu nessa época graças à “acumulação do excedente” e à diversificação do capital cafeeiro em atividades diretas e indiretas ligadas ao setor. Entre as principais componentes do complexo que permitiram tais mudanças estavam: a atividade produtora de café; alimentos e matérias primas; atividades industriais (beneficiamento do café, sacarias, têxtil), infraestrutura (armazéns, portos, transportes e comunicações); implantação e desenvolvimento do sistema ferroviário paulista; expansão do sistema bancário e do comércio externo.


Acumulação do excedente
A ampla acumulação do capital cafeeiro tem início nos anos 1830, quando o café se torna o principal produto da pauta exportadora no Brasil. Em 1885, o Estado de São Paulo já era responsável por 40% do total da produção do café do país. Nessa mesma época também tem grande expressão o ciclo econômico da borracha na Amazônia, estruturado com base na exploração do grande contingente populacional vindo do nordeste do país. O declínio da produção da borracha ocorrera, em contrapartida ao que ocorria com a economia paulista, ainda no final desse mesmo século, após a sua primeira crise de preços, levando a região à decadência.

Expandindo-se com base no principal produto de exportação, o café, que garantia as condições de reprodução do capital mercantil, as variáveis do complexo foram fundamentalmente importantes para garantir as condições para a diversificação do capital cafeeiro em outros ramos industriais. Além do movimento migratório e da abundância de terras, foram importantes ao seu desenvolvimento os saldos comerciais positivos com o exterior e com o resto do país, além das políticas econômicas levadas a cabo no período, com destaque às políticas de defesa e valorização do preço do café. Em 1919 a indústria paulista atingia grau de complexidade suficiente para substituir a corrente de importados europeus interrompida durante a I Guerra Mundial (1914-1919), possibilitando-lhe reagir com mais eficácia à crise de 1929. Entre às principais indústrias que surgiram nesse período estavam: mecânica, material elétrico, transportes e química.


Urbanização
É justamente nesse momento que se inicia o processo de expansão da área urbana na cidade de São Paulo, fenômeno marcado pelo inicio da verticalização das edificações, do uso dos elevadores, da expansão dos serviços de saúde, educação, saneamento, alimentação e transportes, resultados também sentidos com o aumento do fluxo migratório aos principais pólos regionais do país.

O próximo post tratará do processo de urbanização do espaço brasileiro a partir do período característico da "industrialização pesada" (1955 – 1970), esta que foi capitaneada pelo estado de São Paulo, para onde migravam intensos fluxos populacionais no período.


Até lá.

Rodrigo

30 de jul. de 2012

O debate sobre economia regional: um breve resumo (parte 1)

A economia espacial é um dos ramos mais recentes das ciências sociais e tem sido objeto de ampla discussão, com enfoques diferenciados no que se refere ao estudo das variáveis tradicionais estudadas nas ciências econômicas, que se limitam à investigação de teorias do equilíbrio geral das funções de oferta e demanda, dos coeficientes constantes e dos custos de transporte lineares.

O debate remonta a "ciência regional" (regional science), disciplina que se consolida no momento do pós II Guerra Mundial, quando a preocupação com os problemas da gestão do espaço tomam maior consciência na sociedade, tornando-se referência na análise das políticas de ordenemanto territorial, com vistas à constituição de sociedades mais justas e prósperas sobre os destroços da guerra.


O que vem a ser ciência regional?
Segundo essa vertente, a ciência regional (ou economia espacial) é uma disciplina multidisciplinar que incorpora variáveis de diferentes campos da investigação social e dedicam-se a responder os questionamentos sobre as desigualdades e desequilíbrios espaciais presentes a partir da intervenção humana no território.

O problema a que se propõe a investigação da ciência regional é justamente o de que não existe homogeneidade espacial, em detrimento da análise dos agentes em espaços como pontos dados. Sua investigação é resultado, ao contrário, da análise dos objetivos e interesses dos grupos dispersos em diferentes pontos e com características distintas no espaço. A ciência regional introduziu a noção do espaço às teorias existentes obrigando-as a ultrapassar suas simples generalizações ao considerar e incluir novos parâmetros em jogo.


As novas funções da variável espacial
A associação da variável espacial a esta formulação eclodiu em uma nova tônica à análise econômica. O espaço passou a ser visto como um reflexo territorial das relações de produção na sociedade, ou seja, um lugar, com características, legados e valores específicos, em detrimento das teorias clássicas da localização ótima das atividades econômicas, ou modelos locacionais, como uma barreira em distância a ser percorrida, que incorria no incremento do custo adicional de transporte ao preço das mercadorias.

Nas décadas de 1950 e 1960 os estudos desdobraram-se sobre as perspectivas das políticas de ordenamento e crescimento urbano e regional de vanguarda francesa, com destaque à teoria dos "pólos de crescimento" de F. Perroux. As preocupações com a natureza e com o meio ambiente no pensamento espacial só foram admitidas a partir dos anos 1970, com evidência à conferência de Estocolmo, que alertava sobre a problemática entre crescimento econômico e preservação ambiental.


Espaço como ente social
O espaço levou tamanha significância à análise das relações de produção num dado território, de caráter social, que novas abordagens conceituais elevaram a importância sobre a interpretação desse objeto, considerado "essencialmente um ente social". De mero receptáculo das relações humanas no território a produto social, o espaço tornou-se predeterminante para o estudo da componente trabalho social.

A interação homem-meio – na qual o meio natural é transformado em meio de subsistência – precede, por sua vez, a relação homem-homem – esta segunda, resultado de uma transformação mais complexa do meio natural em produtos, o que transcende a condição de trabalho individual ao trabalho social. Tanto a relação homem-meio, como a relação homem-homem – sem que se pese a dicotomia entre suas abordagens – são, no entanto, igualmente responsáveis por transformar e determinar a formação econômico-social existente em um território ao longo do tempo sendo considerada, também, como "reflexo" das relações de produção e luta de classes entre as forças produtivas ali presentes.


Abordagens recentes
Nas últimas duas décadas, os trabalhos de Paul Krugman sobre o desenvolvimento das regiões têm influenciado o pensamento regional, através de um modelo econômico que relacionou a interação econômica de grupos sociais e o desenvolvimento das regiões. Também têm sido vastas as publicações acerca dos distritos industriais, que se apóiam nas antigas instituições de Marshall, com destaque às aglomerações tecnológicas do Silicon Valley, de pequenas e médias empresas (PMEs) da "Terceira Itália", dos serviços financeiros localizadas nas metrópoles, além, mais recentemente, dos pólos tecnológicos, das redes e da governança.

A abordagem desse post terá continuidade com os outros três que serão publicados nesse mesmo espaço, a respeito das evidências sobre os desequilíbrios sócio-espaciais no Brasil na atualidade. A análise não se dará a partir do entendimento quanto às estruturas locacionais que resultaram da concentração industrial no país. Ao contrário, sua compreensão será possível através da ótica das relações de produção e do padrão da divisão do trabalho gerados ao longo de toda a história do país e nas diversas partes do seu território.

Abraços,

Rodrigo 

14 de mai. de 2012

Morador de centro urbano nasce consumidor antes de cidadão

Decorrente do inchaço das grandes e médias cidades no Brasil, o processo de urbanização territorial não tem causado apenas pressão sobre a oferta de serviços públicos para seus moradores – privando-os do direito ímpar à cidadania –,  como tem induzido a "decisão compulsória de compra" dos indivíduos, que já nascem consumidores antes mesmo de serem cidadãos.

Extrapolando ao entendimento dos atos que constam no art. 5º. da Constituição de 1988, que "garante aos brasileiros e estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)", a própria etimologia da palavra cidadania, do latin civitas, cidade, reunião de cidadãos, traz uma explicação muito mais consistente ao termo, sendo o habitante da cidade, nesse contexto, o sujeito da ação, em contraposição ao sujeito omisso e entregue a si mesmo.

Essa condição precede, contudo, não apenas do processo de concentração e apropriação de terras no país, a partir dos anos 1930, mas também pela intensificação e modernização tecnológica no meio rural, sobretudo a partir dos anos 1970, ocasionando a expulsão de grandes fluxos migratórios do campo para as cidades, berço de maior oferta de empregos, formalização do trabalho e salários médios mais altos, como bem destacou  o músico pernambucano Chico Science, em 1994, na letra intitulada "A cidade", do disco Da Lama ao Caos, de coautoria da banda de manguebeat Nação Zumbi.

"A cidade se encontra prostituída
Por aqueles que a usaram em busca de saída
Ilusora de pessoas de outros lugares
A cidade e sua fama vai além dos mares
No meio da esperteza internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos.
A cidade não para, a cidade só cresce,
O de cima sobe e o de baixo desce".

A Cidade, Chico Science e Nação Zumbi (Da Lama ao Caos, 1994)



Soma-se a isso, de tamanha importância para compreender tal fenômeno, o processo de escamoteamento da política de reforma agrária implementada desde os anos 1960 no país. Com o objetivo de levar "excedentes populacionais" a um imenso vazio de terras não produtivas e dominadas por capitais especulativos, as políticas de reforma agrária nunca ofereceram condições para fixação do homem ao campo, aumentando ainda mais a ilusão da inclusão produtiva, a exemplo do afirmou Xico Graziano no excelente artigo intitulado "Ilusão agrária", publicado em 1º. De Maio, Dia do Trabalho, no jornal Estado de São Paulo.

"O pecado capital da reforma agrária, ao se pretender contemporânea, foi achar que poderia transformar desempregados urbanos em prósperos agricultores. Utopia urbana, não vingou. (...) O distributivismo agrário, impulsionado pelas invasões de terras, passou a representar uma ideia atrasada e ineficaz, remédio vencido contra a pobreza. Não resolve oferecer um lote de terra a gente inábil que, distante e desorientada, abocanha as verbas iniciais do Incra, compra um carro velho e se manda de volta à procura de emprego" (GRAZIANO, 2012, on line).

O aumento do contingente populacional nas cidades e a consequente modificação das suas estruturas produtivas internas levaram, por sua vez, tanto à explosão intraurbana em direção às periferias metropolitanas, constituídas por novos aglomerados urbanos, como ao surgimento de novas relações sociais e de trabalho, dotadas de padrão e hábitos de vida peculiares às estruturas urbanas e que culminaram, por sua vez, com o surgimento da chamada "classe média urbana".

Responsável pelo padrão de consumo que conhecemos, a classe média urbana fez surgir um modo de vida peculiar nas cidades. Nelas, o modelo de sociabilidade passava a ser regido por relações de interesse genuinamente comerciais e cada vez mais individualistas antes mesmo de estar voltada ao interesse de convívio coletivo que lhe representaría o espírito de nação.

Com rigor, a cidadania não combina com individualismo e com omissões individuais frente aos problemas da cidade. Nesse contexto, o Brasil parece ser uma país antes de ser uma nação e, no que toca à sua classe média, pouco instruída e, portanto, sem consciência cidadã, não lhe cabe outra coisa se não consumir.

5 de fev. de 2011

Capitalismo artístico-cultural, a dialética entre o conhecer e o saber e o mal-estar na civilização

O sistema capitalista é compreendido nas ciências econômicas pelo processo de desapropriação dos meios de produção do seu produtor. Ganhando ênfase a partir da Revolução Industrial Inglesa (1776), logo após a transição Mercantil e da decadência do Sistema Feudal, o novo modo de relação social Capitalista levou a comunidade mundial nascente a uma nova instituição constituída pela divisão de interesses entre capital e trabalho.

Trocando em miúdos, esse rompimento estabeleceu uma nova regra do jogo à organização entre aqueles que detêm e oferecem o seu capital a risco, sendo remunerados pelo mais-trabalho produzido pelo trabalhador, além daquele próprio necessário para recompensá-lo com o seu salário. Para o aprofundamento neste assunto, veja o conceito desenvolvido por Karl Marx sobre mais-valia absoluta e relativa, nas seções III e IV da sua obra "O Capital" (1867).

Segundo Marx, diferentemente dos modos de produção anteriores ao capitalismo, o modo dominado pela lógica do capital se baseia no mais-trabalho do produtor direto. A acumulação do capital, contrário então à servidão ou à escravidão, não seria possível se o trabalho humano gerasse apenas o necessário para a subsistência dos seus produtores diretos. O processo de centralização de capitais trouxe junto a ele outro processo ainda maior, o da concentração de renda, que passou a guiar o comportamento social a partir dos hábitos e padrões de consumo dos detentores de capital.

O processo social da divisão do trabalho capitalista – considerado também um processo natural por Adam Smith, na obra "Riqueza das Nações" (1776) – permitiu com que muito além da própria transferência de mais-trabalho ao capital, houvesse por parte exclusiva do detentor do capital a concentração da Sabedoria necessária para a produção de uma mercadoria, advinda da transferência do Conhecimento dos diversos ofícios autônomos de cada trabalhador, por cujas mãos têm de passar um produto até o acabamento final.

Mais de dois séculos desde então, nos dias de hoje, a possibilidade de indução social do detentor de capital à aquisição e consumo de produtos a ele necessários à complementaridade do seu saber, deu lugar a sua influência por meio da transferência de conhecimentos desagregados constituindo verdades que satisfaçam o seu novo padrão social. Conforme relatou Caio Garrido no seu blog Saindo da Matriz, baseado no filósofo Luiz Felipe Pondé, a sociedade Pós-Moderna vive um Mito pela Busca do Conhecimento como verdade inquestionável à Verdade da Sabedoria".


Através do conhecimento, da ciência e de seus "refratários", a própria Busca se emoldura em uma sensação de eterna falta, pois as coisas vão tomando tal forma que os conteúdos conhecidos abstraídos na busca do conhecimento se tornam incoerentes entre si. A busca pelo conhecimento e o próprio conhecimento em si mesmo, a chamada "Arte pela Arte", incorpora um "playground" interno, é como se fosse uma brincadeira de criança, uma dança com as palavras, com os conceitos.

A Sabedoria parece apresentar um diamagnetismo, isto é, parece repelir um pouco essa tentativa consciente de busca da Verdade pelo Conhecimento. Isso se desenha e é revelado pelo que e por onde as pessoas buscam a obtenção da sabedoria (...) Assim como numa Análise Psicanalítica a mudança só se sustenta por via de uma verdade interna profunda reestabelecida inconscientemente e com uma postura pró-ativa de se sustentar a "evolução".


Esta dialética entre o conhecer e o saber é clara e se torna bastante evidente na contemporaneidade corroborando com o tema que deu origem ao livro de mesmo nome "Mal-estar na Civilização", escrito por Sigmund Freud em meados da década de 1930, e que retrata a sensação de repressão pessoal imposta pela sociedade.

Tomando com base a obra de Freud, a repressão social passa a acontecer à medida que a sociedade é suprimida do seu prazer instintivo, a qual correlaciono ao prazer da sabedoria, composto pela possibilidade de consumir o conhecimento necessário a evolução do seu saber. Estando alienada do meio ao qual pertence e sendo reprimida por um volume de informações vazias que segregam suas possibilidades de aperfeiçoar a sua sabedoria, a sociedade perde aos poucos a sua integridade passando do seu instinto de vida à destruição do meio em que vive tendo, como um dos sintomas, o aumento da sua agressividade em decorrência da insatisfação da sua capacidade de concretização do amor.

Arte & Cultura, 2008 - Marcos Andruchak
 Além das alternativas apontadas por Freud como remédio a esta mazela social, como a desistência do desejo, à fuga da realidade por meio da loucura, ou a criação de um universo íntimo podendo também acarretar no uso de drogas como meio de evasão desse sofrimento, proponho aqui aquilo que denomino como busca pelo capitalismo artístico-cultural, ou seja, a mesma lógica da produção e consumo capitalista do conhecimento, mas a partir de padrões de consumo social que priorizem a qualidade de informações em detrimento da sua quantidade, induzindo à aquisição do objeto artístico e cultural como meio para a valorização do conhecimento em sabedoria e bem-estar social.

Embora idealista, considero ser esta uma importante colaboração ao pensamento social e mais uma evidência dos cuidados necessário a integridade humana. Espero que esta reflexão tenha sido produtiva sabendo que ainda está longe de ser esgotada.

12 de dez. de 2010

Em busca da felicidade

Ser feliz é tudo o que grande parte das pessoas deseja na vida. Não importa se acompanhada ou não de grandes quantias em riqueza material, o indivíduo contemporâneo quer mesmo desfrutar de satisfação de liberdade e prazer intenso. Ao mesmo tempo, o processo de produção predominante capitalista tem sido questionado quanto sua eficiência em garantir tais sensações passando a ser desafiado a apresentar índices de monitoramento da felicidade social que permitam análises mais precisas para o seu propósito do que o PIB (Produto Interno Bruto), que tem como finalidade medir o desempenho da atividade econômica de um país.

A discussão sobre o tema tem-se tornado calorosa. No último dia 26/11/10 a Folha de São Paulo noticiou "Reino Unido que criar índice de felicidade para medir grau de satisfação do seu povo". Segundo a nota, uma consulta pública acaba de ser lançada para definir o que as pessoas dirão sobre o que é importante para que elas sejam felizes. "Uma vez definida a metodologia, a intenção é ter um índice trimestral, a ser divulgado junto com o crescimento do PIB (...) [que identificará] se o britânico está mais rico ou pobre, mas também se está mais ou menos feliz. E até que ponto um dado influencia o outro".

Um cuidado deve ser tomado. Essa busca permanente pelo estado de alegria acaba por renegar uma grande gama de outros efeitos sentidos pelo homem – como a sua tristeza, sua ansiedade e o seu nervosismo – sem os quais a felicidade talvez não pudesse ser apreciada em momentos memoráveis e especiais. Se levada a cabo incessantemente sem a preocupação de receber junto a ela tantas outras sensações que chegam dentro de um mesmo pacote sensorial (lista de emoções), ou seja, se o indivíduo não alcançar sua paz interna sabendo separar o joio do trigo, a ilusão da emoção desmedida poderá levá-lo a um estado de frustração permanente, como lembra poeta Carlos Drumond de Andrade em "Definitivo".

"(...)
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento, perdemos também a felicidade
(...)".
Carlos Drumond de Andrade - Definitivo

Felicidade como estado de espírito - FIB
O quarto Rei Dragão do
Butão, Jigme Singye
Wangchuck, criador do FIB.
A primeira referência sobre o tema remete aos anos 1970, quando o pequeno reino dos reis dragões, o Butão, no Himalaia, adotou o índice Gross National Hapiness (GNH) – Felicidade Interna Bruta (FIB). Baseado nos pilares (1) desenvolvimento socio-económico sustentável e igualitário, (2) preservação e a promoção dos valores culturais e espirituais budistas, (3) conservação do meio-ambiente natural e (4) estabelecimento de uma boa governança, o índice teria desempenho positivo, uma vez que o desenvolvimento espiritual e o desenvolvimento material ocorressem simultâneamente.

A felicidade não se resume, nessas condições, ao estado inflexível na vida da sociedade, mas a um estado de espírito que permeia o ciclo de sensações de um ser estando - em conformidade com a Filosofia - associada com o "bem-estar ou qualidade de vida e não simplesmente como uma emoção". De acordo com o artigo de Renato Nepomuceno no site oartigo.com, a receita dos filósofos para a vida feliz é aceitar os tropeços. "Até porque [os tropeços] são inevitáveis. É o maior ensinamento do filósofo Zenão, fundador do estoicismo, e seus discípulos (...) que se portam com serenidade diante do revés ou do triunfo. Nem vibra na vitória e nem se deprime na derrota".

PEC da Felicidade e a condição de bem-estar social
No Brasil, no último dia 10/11/10 foi aprovada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado (CCJ) a PEC da Felicidade, de autoria do senador da república e também economista Cristovam Buarque (PDT-DF), alertando o "art. 6º. da Constituição Federal a incluir o direito à busca da felicidade por cada indivíduo e pela sociedade, mediante a dotação pelo Estado e pela própria sociedade das adequadas condições de exercício desse direito", que passou a vigorar por meio do caput.
  • "Art. 6º. São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição". (Constituição Federal do Brasil, 2010.)
Considerada variável de órdem psicológica ligada a dado estado de espírito, a felicidade não se comporta como objeto de estudo competente e resumido ao campo da Economia podendo manter certa relação, no máximo, à chamada economia do bem-estar, que tem como ícones, entre outros, os novos desenvolvimentistas e prêmios Nobel de Economia Amartya Sen (1998) e Joseph Stiglitz (2001). Em resumo, o primeiro considera que é "a liberdade dos humanos para salvaguardarem aquilo que valorizam ainda mais importante do que apenas a possibilidade de satisfazer suas necessidades". O segundo critica a ênfase dirigida ao PIB em decorrência da destruição social: "Algumas pessoas nos países ficam mais ricas, mas o modo de vida e os valores básicos da sociedade continuam ameaçados".

Embora alguns índices de desenvolvimento social tenham sido produzidos na ótica da economica do bem-estar – como o DNA-Brasil e o Índice de Desenvolvimento Social (IDS) – a maior dificuldade em medir o desenvolvimento continua a ser a natureza multidimensional e disciplinar do seu processo. Do mesmo modo que para medir o desenvolvimento, não parece caber à carga de um sintético indicador a capacidade de representar a essência do sentimento da felicidade, que nada mais é do que um dos diversos estados de espírito de ordem preponderantemente psicológica do ser. Políticas públicas permanentes e atualizadas devem, nesse sentido, tentar alcançar à condição de bem-estar social sendo a felicidade, por sua vez, uma conseqüência das emoções cotidianas que deverá, junto ao sofrimento, ser canalizada por cada indivíduo na sua particularidade.

8 de out. de 2010

As oportunidades do cyber anarquismo

Dez anos após o boom da internet, nem mesmo os mais céticos apreciadores dos meios de comunicação materiais e analógicos poderiam renegar a influência das tecnologias digitais no comportamento da sociedade contemporânea. O papel dessas tecnologias no âmbito das redes sociais assumiu tal importância, a ponto da internet se tornar o principal canal de venda dos mais diversos tipos de marcas e mercadorias. Além da opção e busca de preços competitivos, o cliente tem, em poucos minutos e após a seqüência de alguns cliques, oportunidades de conhecer a reputação da empresa, possíveis fragilidades do produto e, isso tudo, sem nem mesmo levantar do sofá.

Mas isso já não é mais nenhuma novidade. O que impressiona mesmo na internet é a infinidade de informações aí disponíveis, porém, ainda timidamente exploradas no que tange a inteligência competitiva das empresas. “As empresas deixam de crescer por conta da falta de compartilhamento de informações”, foi o que afirmou Andrew McAfee, consultor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) em palestra realizada dia 07/10 para a Universidade Corporativa Sebrae, em Brasília. De acordo com McAfee, no atual momento da WEB 2.0, muitas coisas podem ser criadas e desenvolvidas se a postura impositiva de controle dos detentores de informação parar de ser predominante aos subordinados.

A Wikipédia, enciclopédia digital gratuita, permite que o seu conteúdo seja criado com base na colaboração dos seus usuários. Conforme as necessidades e novidades, esses usuários realizam milhões de novas mudanças em um único conteúdo em poucas horas. Trata-se da oportunidade de encontrar os mais peculiares detalhes sobre um dado tema aonde quer que eles estejam no mundo.

Informações valiosas sobre o que um determinado cliente pensa, gosta e deseja podem ser facilmente obtidas na internet. A rede social Facebook é um bom exemplo de como obter tais informações e indica a mudança de paradigma nos novos tempos. Em oposição ao antigo diário pessoal de notas e memórias – aquele costumeiramente utilizado décadas atrás e que levava um pequeno cadeado anexo para resguardar os nossos segredos – o Facebook nasceu como uma vitrine para que todos os mais íntimos acontecimentos do cotidiano sejam revelados abertamente para o maior número de pessoas possíveis.

A verdade é que é muito fácil escutar o que dizem, ou melhor, o que escrevem e pensam os clientes. Empresas de buzzmonitor disponibilizam, por exemplo, a análise das nuvens de tags e assim identificam o que vem sendo dito de bom ou de ruim sobre uma empresa permitindo que ações direcionadas sejam feitas para maximizar a utilidade do seu consumidor. A ferramenta Google Analytics também permite o monitoramento das visitações feitas a um dado site, e até mesmo dos termos mais usados na rede em um dado momento sinalizando, assim, as tendências e novidades de qualquer mercado.

Neste cenário, o cyber anarquismo comportamental do internalta tornou-se muito valioso para possibilitar o planejamento das estratégias empresariais de promoção e comercialização de uma marca ou produto. Esse conjunto de informações pode ser utilizado, afinal, para a realização de campanhas promocionais dirigidas, como e-mails marketing, ações de impacto regionais, campanhas com foco em nicho setoriais, entre outras visando persuadir o ato de compra do consumidor, estimulando a demanda por um produto e aumentando a competitividade e a atitude empreendedora do empresariado. Àqueles que continuam tentando inibir ou defender-se desse novo processo, cabe somente uma nova postura, tirar proveito dessa nova e tão valiosa tecnologia digital.

7 de jun. de 2010

Transição baseada no Desenvolvimento Sustentável


Virus Verde - Jonnyjto 

A transição para um novo padrão de vida baseado no desenvolvimento sustentável inclui, em primeiro lugar, a atenuação do processo de mudanças climáticas decorrente da grande emissão de gases causadores do efeito estufa. Esse fenômeno é decorrente da ação humana nos ecossistemas por meio do uso indevido de energias fósseis, dos processos produtivos industriais inadequados, do uso de transportes motorizados, do padrão de consumo da sociedade moderna, além do desmatamento das florestas e da produção agropecuária.


Para a construção de um novo modelo, isto é, uma combinação viável entre economia e ecologia, é preciso retornar à Economia Política, que diferentemente da Economia Tradicional, permite um planejamento simultâneo para as questões ambiental e social. Ao passo que cabe às ciências naturais descrever o que é preciso para um mundo sustentável, compete às ciências sociais a articulação das estratégias de transição rumo a esse caminho. O destino da biosfera exige, portanto, uma agenda que conclame pessoas de muitas instituições e de uma ampla variedade de disciplinas a pensar juntas sobre cenários evolutivos que conduzam da situação presente para um mundo sustentável no século 21. Para isso, o custo do uso da biodiversidade à análise econômica deve ser incorporado na perspectiva da complexidade dos serviços ecossistêmicos e não mais contabilizados com a finalidade de mudar a dinâmica de decisão dos agentes econômicos que se guiam pela monetização da economia tradicional.

Com a contribuição da ciência contemporânea, podemos pensar uma nova forma de civilização, fundamentada no uso sustentável dos recursos renováveis. Os avanços técnicos devem buscar tecnologias adaptativas subordinadas a valores éticos e objetivos sociais. A utilização das ciências de ponta - principalmente biologia e biotécnicas para explorar o aumento da produtividade e da faixa de produtos derivados da biomassa - pode auxiliar os países em desenvolvimento na invenção de seus padrões endógenos de desenvolvimento mais justos e, ao mesmo tempo, com maior respeito pela natureza.

Só há desenvolvimento quando os benefícios do crescimento servirem à ampliação das capacidades humanas, entendidas como um conjunto de coisas que as pessoas podem ser, ou fazer, na vida, como ser instruído e ter acesso aos recursos necessários a um nível de vida digno. Já a sustentabilidade deve decorrer de uma "condição estacionária" de crescimento do produto, na qual a economia continuaria a melhorar em termos qualitativos, substituindo, por exemplo, energia fóssil por energia limpa.


O desenvolvimento sustentável é, portanto, um sistema que vai além da dicotomia entre capitalismo e socialismo. Ele incorpora democratização à economia - por meio da chamada economia solidária, da criação de empregos verdes, do acesso às tecnologias de informação e comunicação, dos hábitos de consumo conscientes e da articulação de sistemas tributários verdes – para permitir que cada indivíduo revele suas capacidades, seus talentos e sua imaginação na busca da auto-realização e da felicidade, mediante esforços coletivos e individuais.

Para que o desenvolvimento sustentável possa ser medido, não basta apenas tentar “esverdear” o cálculo de desempenho medido pelo PIB (Produto Interno Bruto) e demais indicadores disponíveis, mesmo porque dificilmente algum índice poderá sintetizar sua realidade complexa. O emprego mais razoável do poder de atração dos índices de desenvolvimento é aquele que estimula os usuários a examinar as discrepâncias do processo para lhes permitir analisar as diversas dimensões do desenvolvimento em paralelo e em separado.

10 de ago. de 2009

Coisas Humanas


fotoDesigualdade - Sebastião Salgado
Tanto mais a sociedade moderna evolui, mais arcaica parece se tornar. Refiro-me a relação entre os homens. Não só os livros são deixados de lado, mas as reflexões são banalizadas pelas telenovelas, e a ignorância se torna cada vez mais presente no cotidiano. Não se trata apenas das telenovelas, mas da quase totalidade televisiva oferecida à massa, manobrável. O marketing de guerra - ou seja, aquele destrutível - é o ícone da decadência popular. As relações humanas são cada vez mais baseadas nas coisas. Os homens, então, não se relacionam entre eles, mas com os seus smartphones, blue-rays, com seus carros, sapatos, com o "esculturismo" na ponta do seu nariz, enfim, com a mercadoria a sua volta e se deixado levar pelo seu feitiço secreto. A vida se tornou exageradamente materializada, e pouca importância foi dada ao indivíduo, massacrado o suficiente para ter de pensar. O ser, o igual, o próximo, se tornou, nesta fase, uma mercadoria aguda do Capitalismo. Especialmente após os anos 80, o processo de globalização financeira abarcou o mesmo modo de produção não apenas no eixo Ocidental do Globo, mas também às sociedades asiáticas antigas. Pela primeira vez a História testemunhou um mesmo tipo de relação social imposto aos quatro cantos do mundo. Esta relação é fundamentada entre homem e não-homens, mas coisas, e vislumbra ser ainda mais inerente ao processo de decadência da modernidade, inicialmente descrita por K. Marx no ensaio sobre o caráter fetichista da mercadoria e seu segredo: "não é mais nada que determina relação entre os próprios homens que para eles aqui assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas" (MARX, Karl, O Capital, capítulo I, seção 4, 1867). Algo sério e alarmante está diante dos olhos dos que se atem. É chegada à hora da mudança, que lenta e penosa, dará início a um processo de transição na história moderna. Assim como o Mercantilismo foi, na transição do Feudalismo para o Capitalismo, esta nova transição vislumbrará uma evolução no campo das idéias acerca das relações-humanas, tornando exígua a orientação social dirigida à coisa. É esperado um novo tipo de organização produtiva baseado em relações entre gente. Um modelo em ebulição, que só poderá aparecer quando as circunstâncias da vida prática dos homens representarem relações transparentes e racionais entre si, e com a natureza. A massa não será mais manobrável, se é que existirá. "A figura do processo social da vida, isto é, o processo da produção material, apenas se desprenderá do seu místico véu nebuloso quando, como produto de homens livremente socializados, ela ficar sob o seu controle consciente e planejado" (Op. Cit.). O novo homem, portanto, não se deixará mais levar pelo caráter humano das coisas, mas pelo caráter humano dos homens, e se falhar, chegará o dia em que ele nada mais encontrará, senão que a sua própria ilusão.

Rodrigo

6 de out. de 2008

Esgotamento ou salvação do Sistema Capitalista?


Foto: Sebastião Salgado
 A recente crise que se espalhou pelas maiores economias do mundo durante o segundo semestre de 2008 tem deixado grandes seqüelas por onde passa. O que não se sabe é se o seu estrago já tem data para terminar, ou se sua semente levará tempo a germinar.

A crise das hipotecas que se instaurou nos Estados Unidos no início de 2007 gerou conseqüências para a economia mundial. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), as instituições financeiras do globo reportaram perdas de quase US$ 1,4 trilhão até julho de 2008.

Após os mutuários norte-americanos terem ficado sem emprego e tido as suas casas tomadas por conta da inadimplência dos recursos emprestados, agora foi a vez da Zona do Euro ter registrado perdas envolvidas à recessão mundial. Igualmente, imigrantes que aí vivem já começam a deixar suas casas e retornam aos seus países fugindo das condições limites e o aumento do desemprego na região.

As seqüelas que tiveram origem no mercado financeiro norte-americana tornam-se cada vez mais nítidas na economia real e criam hoje uma situação de insegurança extrema até mesmo nas economias chamadas emergentes, cujas pegadas ainda não foram claramente rastreadas.

Com razão, o fenômeno da globalização financeira, que se manifestou no último quarto do século vinte, tornou os mercados tão interligados que passou a determinar um quadro de liquidez e volatilidade sem precedentes na história econômica mundial. Com a crescente interdependência entre os países, o desafio dos bancos centrais e dos órgãos multilaterais para a gestão da (des)ordem econômica tornou-se ainda maior.

Em um cenário ao que parece tão pouco promissor, a dúvida que fica é: quando essa crise chegará de vez ao Brasil? Será que apesar de todas as ações tomadas pelos agentes econômicos mundiais - dentre as quais as principais foram o acordo de US$ 700 bilhões de dólares de empréstimo do Tesouro americano ao sistema financeiro e os 50 bilhões de Euros do BCE com o mesmo propósito na Zona do Euro – haverá meios para por fim a recessão que se instaura no mundo? Ou esta crise veio mesmo para ficar e por fim ao sistema capitalista tal qual se é conhecido?

Por um lado, a clara supremacia do dólar norte-americano permite que este país continue a financiar sua dívida sendo uma espécie de credor e devedor simultaneamente. Trata-se de uma espécie de fundo perdido com o qual a economia norte-americana cria condições de viabilizar o financiamento da globalização comercial e produtiva, ao passo que potencializa a volatilidade e a instabilidade dos mercados financeiros globais.

A alternativa aos países não emissores de moedas conversíveis foi apenas uma: adotar uma clara estratégia de acumulação de suas reservas cambiais, que hoje superam os US$ 7 trilhões, como meio de resistir a um difícil momento na conjuntura mundial. Isto significa que em uma situação de recessão, as economias que acumularam reservas, como é o caso do Brasil (aproximadamente US$ 200 bilhões) apresentam uma gordura extra a ser queimada, antes mesmo que torrem com a sua carne.

Ao passo que os recursos angariados sejam corretamente aplicados, a tendência é de que ocorra uma reorganização do sistema financeiro mundial garantindo a salvação e um novo fôlego à economia mundial. Enquanto isso, uma das medidas que cabe ao Brasil para se resguardar neste momento é a de utilizar esta reserva como ferramenta de crédito interno até que a ressaca mundial seja finalmente curada.

Por outro lado, ainda não se sabe ao certo se todas as mazelas desta crise já passaram mesmo com as ações tomadas pelos agentes reguladores mundiais, ou se estas ainda estão por vir e com que intensidade. Algumas correntes, por exemplo, afirmam que tais medidas de socorro aos bancos só adiam um problema inerente ao Sistema Capitalista, a acumulação de capital.

A incapacidade de financiamento da sua máquina motora, a instituição financeira, trará um momento de profunda recessão a qual nenhum mercado deverá escapar. Semelhante ou não à crise dos anos 1929, a nova tensão causará pânico e desordem social. Maior em volume e lenta em velocidade, o rearranjo do sistema econômico deverá ocorrer em alguma base, possivelmente diferente a esta do "hipercapitalismo predatório" ao qual hoje se conhece, que então estará esgotado.