Abas/ guias

24 de mai. de 2010

Seminário "Economia Ecológica"

A construção de um novo modelo econômico que inclua a variável ecológica nas decisões dos agentes econômicos deve incluir na sua agenda a valoração dos ecossistemas do planeta, a construção de equações que incluam na sua composição variáveis não monetizáveis, além de análises multidisciplinares dos diversos campos do saber. Esta idéia foi defendida por Ademar Ribeiro Romero, professor do Instituto de Economia da Unicamp (IE-Unicamp), no seminário “Economia Ecológica”, realizado no dia 20 de maio de 2010, no PROCAM-IEE-USP (Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo).

O evento discutiu os valores ecológicos e socioambientais na perspectiva econômica. Romero falou sobre a diferença entre os conceitos da economia clássica tradicional – que incorpora a monetização dos impactos ambientais aos processos produtivos – e a chamada economia ecológica - que voltou a ganhar destaque no meio científico multidisciplinar por destacar um valor ecológico ao processo produtivo.

Segundo Romero, a valoração feita no processo econômico-ecológico tem a finalidade de mudar a dinâmica de decisão dos agentes econômicos que se guiam pela monetização da economia tradicional. A valoração consiste em incorporar a complexidade dos serviços ecossistêmicos à análise econômica. Esses serviços são compostos por micro vidas presentes no solo, atividade enzimática das miríades de seres vivos, capacidade de preparação de nutrientes e acúmulo de água pelo solo, entre outras.

Um exemplo da ação humana na perspectiva da economia ecológica é o sistema de plantio direto em detrimento da aragem. Esse método permite que o solo fique mais protegido das trocas de calor com o meio externo, além de fazer melhor proveito da água para plantio.

Para que a eficiência econômica se reflita na redução do uso dos recursos materiais, ou seja, àquilo que Romero classifica como “desmaterialização da economia”, é necessário que esse novo modelo admita uma taxa de crescimento econômico zero. Ele acredita que devido à finitude dos recursos materiais da terra, o capitalismo terá de encontrar um estado estacionário condizente a mudança dos hábitos de consumo da sociedade em escala global. Esse modelo remete ao uso de energia limpa, como a solar e nucleares modernas, entre outras práticas de consumo consciente que deverão ser amadurecidas.

Abs

9 de abr. de 2010

As facetas ocultas do tripé macroeconômico no Brasil

Breve histórico

Desde o Plano Real (1994) - segundo Delfim Neto relatou na coluna intitulada “Credibilidade é coisa séria”, no Jornal Valor Econômico em 30/03/10 - mas com preponderância a partir de 1999, o uso da política econômica brasileira apóia-se em um tripé:

“1º) política fiscal cuidadosa que, ao mesmo tempo, mantém déficits nominais em torno de 3% do PIB e superávits primários que levam à queda monotônica da relação dívida pública [dívida líquida do setor pública]/PIB (importante para a formação da taxa de juro real); 2º) política monetária que, com um Banco Central operacionalmente autônomo, busca a estabilização da taxa de inflação anual em torno de uma "meta" (hoje 4,5%); e 3º) política de câmbio flutuante com quase completa liberdade de movimento de capitais”. (Delfim Neto)

Essa continuidade da política econômica tem seus méritos por facilitar o planejamento e a tomada de decisões dos agentes econômicos, mas também tem suas limitações. Apesar dos avanços conquistados, as escolhas da política econômica adotada vêm suscitando intenso debate, principalmente devido à idéia do instável crescimento econômico – que trata como apêndices do processo decisório os eixos centrais do desenvolvimento econômico, como educação e meio ambiente, como vem admitindo Eduardo Giannetti da Fonseca (ver entrevista “Para Giannetti, discurso econômico deve focar capital humano”, no Jornal Folha de São Paulo, de 14/03/10 -, além dos efeitos colaterais provocados pelos juros elevados, a valorização da taxa de câmbio e a política pára-fiscal adotada durante o segundo mandado do presidente Lula. Soma-se a isso, como afirmou José Eli da Veiga no artigo “O impasse brasileiro”, no Jornal Valor Econômico em 16/03/2010, a necessidade de que se crie “um novo sistema tributário como parte de uma estratégia macroeconômica muito mais avançada que o atual ‘tripé’” (José Eli da Veiga).

O texto que foi elaborado com base na discussão elaborada no trabalho intitulado “Economia Brasileira: riscos e oportunidades”, de Antônio Corrêa de Lacerda, de 2006, porém, com dados atualizados para 2010.


Metas de inflação

O sistema de Metas de Inflação foi adotado no Brasil no ano 1999, logo após a introdução do regime de câmbio flutuante. A estratégia tem permitido um razoável sucesso no combate à inflação. Em contrapartida, tem suscitado uma interessante polêmica no debate econômico, especialmente quanto ao papel do COPOM - Comitê de Política Monetária do Banco Central - que periodicamente se reúne para definir a taxa básica de juros (Selic), que embora tenha sido gradualmente reduzida, ainda é considerada excessivamente elevada pelos críticos (8,75% em abril de 2010).

A Meta de Inflação é fixada a cada ano pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A principal crítica ao sistema é que ao perseguir o cumprimento dessa meta estipulada, o COPOM acaba fixando uma taxa de juros demasiadamente elevada. O sistema tem seus méritos, por tentar coordenar as expectativas dos agentes econômicos quanto ao comportamento esperado da inflação, evitando assim, repasses de preços exagerados.

A elevação das taxas básicas de juros encarece o crédito, o financiamento e posterga decisões de investimentos, reduzindo potencialmente o nível da atividade econômica, sobretudo o PIB (Produto Interno Bruto). Adicionalmente, encarece o financiamento da dívida pública, uma vez que uma parcela expressiva dela é financiada por taxas pós-fixadas atreladas à Selic.
Um outro efeito da elevada taxa de juros é valorizar artificialmente a taxa de câmbio do Real, relativamente às demais moedas internacionais. A taxa de juros elevada no mercado doméstico acaba atraindo capital especulativo em excesso, fazendo com que a oferta, bastante superior à procura de moeda estrangeira, acabe por provocar a sua valorização do Real.


Responsabilidade fiscal

Do ponto de vista fiscal, o resultado primário das contas públicas é o obtido pela diferença entre a arrecadação do governo federal, estadual e municipal e suas respectivas empresas estatais, menos as despesas correntes, ou seja, sem levar em conta os custos financeiros (juros) sobre a dívida. Desde 1999 o Brasil vem obtendo expressivos e crescentes superávits primários, próximos a 3% do PIB. Em 2009, por conta o aumento das despesas totais correntes do governo, as desonerações com impostos e a própria queda do nível da atividade econômica, o superávit primário atingiu apenas 2,1% do PIB.

O fato é que o esforço fiscal, decorrente de uma crescente carga tributária e atrofia dos investimentos públicos, tem proporcionado uma relativa redução da relação dívida líquida do setor público/PIB (42,8% do PIB em 2009). Não se trata de uma proporção elevada, quando comparada com outros países, mas é uma dívida excessivamente concentrada no curto prazo e de elevadíssimo custo de financiamento.

No médio e longo prazos, a Lei de Diretrizes Orçamentárias e a Lei de Responsabilidade Fiscal têm sinalizado uma relativa estabilidade nessa área. Esses instrumentos têm permitido um razoável grau de transparência e previsibilidade no que se refere ao comportamento das contas públicas. No entanto, a elevada carga tributária, o baixo investimento público – respectivamente de 35% do PIB e 6,1% do PIB em 2009 - e as políticas pára-fiscais adotadas no Segundo Governo Lula colocam em xeque a sustentação do quadro fiscal no longo prazo.

Do ponto de vista macroeconômico, depois dos avanços na queda da inflação e expressivo ajuste nas contas externas até 2007 – já que houve expressiva deterioração das Transações Correntes a partir de 2008 que foram compensadas, no entanto, com o expressivo volume de Investimentos Diretos Externos (IDE) no período - nos últimos anos, o desafio brasileiro se volta para o âmbito fiscal.

A carga tributária tem sido crescente. De 24,6% do PIB em 1991, subiu continuadamente, atingindo 28,5% em 1998, bateu o recorde de 37,4% em 2005 e caiu para 35% do PIB em 2009 por conta das medidas de desoneração fiscal do governo a certos setores da economia por conta da crise financeira de 2008/09. Para José Elida Veiga, somente a maior radicalização na elaboração de uma reforma fiscal possibilitaria a reforma tributária.

“Se fosse possível limitar os gastos correntes do governo a um teto que se seja metade da variação do PIB, seria possível que em oito ou dez anos houvesse folga para se realizar uma reforma tributária que partisse da carga de aproximadamente 35% do PIB para 30% do PIB. Acrescenta-se a essa ideia a necessidade da tributação dos recursos naturais, tanto para não exonerar outros setores da economia, como também criar um fundo para a renda básica cidadã” (José Elida Veiga).

A política pára-fiscal adotada no Segundo Governo Lula é outro fator de ameaça a estabilidade fiscal da economia brasileira ao permitir aportes volumosos do Tesouro ao BNDES para financiar, sobretudo os grandes grupos da sociedade. A Fazenda descobriu que se o Tesouro repassar os recursos para os bancos públicos, não há comprometimento da dívida liquida do setor público.

O diferencial de juros dos títulos que o Tesouro emite e repassa não pressiona a dívida líquida (42,8% do PIB em 2009), pois gera um passivo e um ativo que se anulam, mas eleva a dívida bruta (68,6% do PIB em 2009). Outro fator importante é o de que não há qualquer contrapartida (como metas de exportação ou crescimento de vagas de trabalho) desses aportes a esses grupos que, numa situação de quebra, farão com tais aportes sejam dados a fundo perdidos.

Segundo cálculos apresentados por Mansueto Almeida por meio da sua entrevista ao Jornal Estado de São Paulo, “Reforço do BNDES custa até R$ 14 bi ao Tesouro”, em 07/12/2009, estima-se que o custo fiscal desses aportes situem-se entre R$ 5,2 bi e R$ 13,8 bi aos cofres públicos, a partir do aporte de R$ 237,5 bi do Tesouro ao BNDES.


Transações Correntes e liberdade de capitais

Um outro ponto de destaque da economia brasileira do período 2000-2007 é o expressivo ajuste no balanço de pagamentos. Os significativos resultados, obtidos especialmente a partir de 2003, têm sido fundamentais para diminuir a vulnerabilidade externa da economia. De outro lado, uma das críticas recorrentes é a de que diante de um quadro internacional tão favorável que tem prevalecido desde então - a exceção da crise financeira de 2008/09 -, o país deveria perseguir um crescimento do PIB pelo menos equivalente a média dos principais países em desenvolvimento.

Ao proveito da expansão da liquidez internacional, a economia brasileira vem conseguindo progressos na diminuição da sua vulnerabilidade externa. O expressivo resultado da Balança Comercial que apresentou superávits desde o ano 2000 possibilitou a reversão, até 2007, dos déficits em conta corrente - de 4,3% do PIB em 1999 para superávits acima de 1% do PIB até 2007. Esse quadro voltou a se reverter em 2008 devido a nova dependência do financiamento brasileiro ao setor externo quando, então a Balança de Pagamentos voltou a enfrentar déficits em Transações Correntes acima de 1,5% do PIB, compensados, porém, pela volumosa quantia de Investimentos Diretos Externos (IDE) no Brasil, resultado da quase completa liberdade de movimento de capitais.

No entanto, a partir de 2004, e ainda com maior intensidade em 2007 e 2008, o processo de valorização contínua do Real diante das demais moedas tem representado conseqüências negativas para a estrutura produtiva brasileira. O Brasil tem incorrido no processo da sobrevalovalorização cambial, que só não repercute diretamente no saldo da balança comercial do país por conta da valorização do preço das commodities exportadas nos últimos anos.

Alguns desses efeitos já são evidentes, embora nem sempre fique claro para a opinião pública o papel do câmbio no processo. Os impactos já são notados tanto em setores tradicionais como têxteis, calçados, quanto em setores dinâmicos, como o eletroeletrônico, químico-farmacêutico e o automobilístico, para citar alguns exemplos.

Há um perverso processo de substituição da produção local por importações, deslocamento de centros de exportação para outros países e perdas potenciais de oportunidades de absorção de investimentos diretos estrangeiros. Todos esses fatores provocam desequilíbrios no valor agregado local, afetando negativamente a geração de emprego e renda.


Desafios
Além de um esforço inevitável de redução dos gastos correntes e aumento da eficácia dos serviços públicos, é fundamental ao governo criar as condições para uma efetiva redução dos juros reais na economia. Os instrumentos para isso podem ser, entre outros, o aperfeiçoamento do sistema de metas de inflação e a estrutura da dívida pública, por exemplo, diferenciando as taxas de juros de curto e longo prazos. São procedimentos bem sucedidos em várias experiências internacionais.

Apesar da expressiva melhora dos fundamentos da economia brasileira nos últimos anos, que propiciou uma redução do risco externo, os juros reais ainda continuam os mais elevados do mundo (4% a.a. em março de 2010). O Banco Central vem diminuindo gradativamente a taxa de juros básica (Selic) nominal. Mas, como as perspectivas de inflação futura são cada vez mais baixas, as taxas de juros reais (ex-ante) continuam muito elevadas, pressionando o custo de financiamento da dívida pública, entre outros efeitos adversos.

O ajuste fiscal brasileiro precisa contar com maior determinação na redução dos juros, para que o esforço de diminuição de gastos seja factível, dada a realidade brasileira. É preciso lembrar que o aumento dos gastos na área social, por exemplo, embora de fundamental importância, tem servido de amortecedor para as mazelas sociais, decorrentes do baixo crescimento econômico dos últimos anos.

O déficit nominal consolidado do setor público brasileiro inferior a 3% do PIB não é elevado para padrões internacionais. É preciso direcionar, porém, ações para diminuir a significativa carga tributária, a partir da maior radicalização de uma reforma fiscal, abrindo mais espaço para os investimentos não só com base em créditos públicos, que vem corroendo a dívida pública bruta, mas através do acesso ao crédito privado.

A valorização das commodities no mercado internacional tem levado a uma percepção equivocada no Brasil de que a valorização cambial não tem provocado estragos. Como os preços dos produtos primários exportados estão mais elevados, a receita em dólares gerada ainda permite um superávit significativo na balança comercial, distorcendo a análise. O fato é que, do ponto de vista qualitativo, estamos perdendo participação relativa nas exportações de bens sofisticados e de demanda crescente no mercado internacional. Esse espaço tem sido ocupado por outros países.

A importação barata também provoca reestruturações. As empresas percebem que é mais viável economicamente importar do que insistir em produzir localmente, com condições adversas. Isso pode ser uma saída para a empresa no curto prazo. Mas, no longo prazo, para o País, isso é péssimo, pois haverá a desarticulação de cadeias produtivas que levaram décadas para serem constituídas.

Esse quadro é agravado pela entrada agressiva de competidores chineses no mercado brasileiro e em terceiros mercados, muitas vezes concorrendo, de forma desleal, diretamente com produtores e exportadores brasileiros. É claro que isso não decorre apenas da taxa de câmbio, já que outros fatores de competitividade, como custos de produção e mão de obra, logística, impostos, etc. também são relevantes. No entanto, o que não deveríamos admitir é que a valorização exagerada da nossa moeda viesse a se transformar, como de fato vem ocorrendo, em fator adicional de acirramento de nossas desvantagens. É sempre bom lembrar que os chineses, assim como vários outros competidores utilizam a desvalorização do câmbio como fator de competitividade.

O argumento de que a política de câmbio é flutuante e que a taxa é dada pelo mercado não resiste a uma análise mais abrangente. No caso brasileiro, tendo em vista uma combinação de fatores, a tendência à apreciação do Real é muito forte: 1) o enorme diferencial entre a taxa de juros doméstica e a internacional; 2) o baixo volume de comércio exterior brasileiro proporcionalmente ao PIB; e 3) o superávit proporcionado pela valorização dos preços das commodities no mercado internacional, decorrente do aquecimento da demanda.

Há ainda quem minimize o efeito da valorização do Real argumentando, equivocadamente, que se trata de um processo internacional de valorização das moedas em relação ao dólar norte americano. Não é verdade. Proporcionalmente, o Real tem se valorizado muito mais do que as moedas dos demais países emergentes. Na prática, isso significa um encarecimento do nosso custo de produção em dólares, comparativamente a outros países, agravando os pontos aqui levantados. Algo que o Banco Central deveria evitar através do incremento de Dólares às Reservas Internacionais, pois os prejuízos provocados são relevantes, ao mesmo tempo em que os eventuais benefícios são artificiais e temporários.

Portanto, há uma agenda macroeconômica a ser trabalhada. É preciso aproveitar o momento de retomada da liquidez da economia internacional para promover os ajustes necessários. Da mesma forma, é preciso mais ousadia e precisão na condução da política do “tripé macroeconômico”, especialmente no que se refere à calibragem das políticas monetária e cambial e da rigidez e transparência da política fiscal.


Questões norteadoras

• O atual patamar da taxa de juros para contenção da inflação não incorre em redução do chamado PIB potencial?
• A política pára-fiscal adotada durante o Segundo Governo Lula compromete a queda do estoque da dívida do setor público?
• O custo fiscal da política pára-fiscal comprometo projetos de redistribuição de renda que poderiam ajudar o desenvolvimento do país?
• Qual a taxa de câmbio a ser adotada pela economia brasileira para que sua indústria obtenha competitividade não incorrendo nos processos de desindustrialização dos setores mais dinâmicos em face aos daqueles de menor capital intensivo, característicos do processo da chamada “doença holandesa”?
• Existe comprometimento dos investimentos em capital tecnológico caso o país não adote políticas cambiais competitivas? Isso poderia comprometer o investimento em capital humano e meio ambiente.

Um abraço,

17 de mar. de 2010

Seminário Economia Verde

No último dia 15 de março de 2010 foi realizado no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, o Seminário Economia Verde. O evento comemorou o aniversário de um ano da agência de fomento Nossa Caixa Desenvolvimento que lançou, com base na Política Estadual de Mudanças Climáticas (PEMC - Lei 13.798), uma nova modalidade de financiamento, chamada Linha Economia Verde, destinada às pequenas e médias empresas paulistas que, por meio de processos produtivos menos poluentes, se comprometerem a reduzir a emissão dos gases causadores do efeito estufa. Aprovada em 2009 pelo governo do estado de São Paulo, a PEMC prevê a meta para redução de 20% de gases de efeito estufa na região até 2020.

O evento foi dividido em duas partes. A primeira contou com a conferência do Professor Ignacy Sachs, que destacou a necessidade de pensar simultaneamente à defesa do meio ambiente e da sociedade como meio para o desenvolvimento mundial durante o terceiro estágio da transição terrestre que está em curso.
A segunda parte contou com a participação de alguns especialistas que apontaram para os desafios e às possíveis soluções para enfrentar as dificuldades da crise ambiental que se propaga no mundo. Ignacy Sachs é economista especialista na área das ciências sociais. Diretor do Centro de Pesquisas do Brasil Contemporâneo na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais, em Paris. É o cvriador um dos criadores do conceito ecosocioeconomia.

Segue abaixo os principais trechos da palestra do Professor Sachs que, inicialmente, parabenizou o estado de São Paulo por representar a vanguarda do debate mundial sobre como fazer coisas que permitam reduzir os impactos ambientais e, ao mesmo tempo, avançar nos problemas sociais.

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No início do século XXI o mundo enfrenta dois grandes desafios que não se resumem apenas à questão do meio ambiente, mas também ao seu enorme passivo social. Por isso já é hora de a sociedade parar de pensar nos velhos paradigmas do socialismo real – cujo marco da decadência foi em 1989 com a queda do muro de Berlim – e do mito dos mercados que se alto regulam, o laissez faire – que se mostrou esgotado a partir da crise financeira mundial iniciada em 2008 cujo marco foi a quebra do banco de investimentos Lehman Bothers.

A obrigação da sociedade neste momento é pensar, portanto, como estes dois desafios podem ser enfrentados simultaneamente. Neste contexto convêm avaliar a iniciativa da Nossa Caixa Desenvolvimento de gerar novas linhas de crédito não só para mitigar a emissão dos gases de efeito estufa, como também para gerar condições de trabalho decentes à população – através da remuneração da força de trabalho de forma digna, de acordo com a situação de cada economia e demais elementos qualitativos.

A sociedade vive um momento bastante excepcional, pois não só enfrenta a crise financeira, como também a crise ambiental e o modelo da globalização. Isso leva a repensar as estratégias de desenvolvimento tomando como ponto de partida o pensamento do argentino Aldo Ferrer e do chileno Osvando Sunkel. Não se trata de propor a autarquia, mas de repensar soluções a partir daquilo que existe ao alcance das mãos, ao redor, lembrando que esta crise ambiental é um assunto especial.

O mundo está entrando no começo da terceira grande transição da evolução da espécie humana. Há cerca de doze mil anos houve a primeira, a neolítica, marcada pela domesticação das espécies vegetais e animais, a sedentarizarão das tribos e o primórdio da civilização. A segunda foi em meados do século XVIII a partir da utilização das energias fosseis e das revoluções industriais que se seguiram.

Hoje, no início do século XXI, a explosão da população humana no planeta e as mudanças climáticas que o ameaçam são o início da terceira grande transição. Por isso é necessário que a sociedade dê conta de atacar simultaneamente a crise ambiental, financeira e repensar o conceito da economia global, que se caracteriza neste momento pelo uso de transportes pouco úteis e por um grupo de países que se beneficiam ao custo do prejuízo de outros.

Para onde queremos ir afinal? Onde estão as margens de liberdade que a sociedade enfrenta hoje? Para este novo curso é necessário, em primeiro lugar, que as redes universais de serviços sociais (educação, saúde, saneamento, habitação popular) sejam garantidas a partir da possibilidade de um estado desenvolvimentista livre da ação do mercado.

Em segundo, é preciso que haja ampliação do perímetro daquilo que no Brasil se conhece como economia solidária e que na Europa se chama economia social. Autarquias, empresas para-estatais, Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs), dentre outras que não se regem pela apropriação privada do lucro devem ter um perímetro maior de atuação segundo as políticas a que se aplicam.

Finalmente, a terceira condição necessária para enfrentar este desafio é a construção de uma economia verde. Ela deve ser capaz de reduzir os impactos ambientais e os gases do efeito estufa - que ameaçam uma mudança climática irreversível e deletéria - conjugada com o maior número de oportunidades de trabalhos descentes.

O paradigma enérgico é um elemento central nesta produção. Não se trata apenas da troca de energias fósseis por energias limpas e renováveis, mas, sobretudo pela alteração do seu padrão de consumo, através da maior sobriedade da população. Isso significa mexer com os estilos de vida, como o uso dos meios de transportes, dentre outros que possam ser mais ou menos necessários ao cotidiano.

Na França, por exemplo, Sachs diz poder atravessar um inverno europeu sem o consumo de cerejas, mesmo sabendo da possibilidade de importá-las do Chile, para que haja economia de recursos. Este é um exemplo que pode ser facilmente generalizado. É necessário, portanto, que a sociedade pense na questão da eficiência energética como forma de aprimorar e substituir o seu uso, através da substituição das energias fósseis pelas renováveis, como eólica, dos mares, e a bioenergia.

Países tropicais, como o Brasil, são particularmente beneficiados pelo clima, pelas “terras da boa esperança”, que estão predestinadas a construir as “biocivilizações do futuro”. A biomassa é, afinal, alimento humano, ração para animais e adubo para plantações. Trata-se do mundo que está por ser conquistado. Nessa direção convêm reestruturar a economia para uma economia verde que aproveite ao máximo estes recursos renováveis, gerando um grande número de empregos.

Para avançar nesta direção cuja iniciativa do governo de São Paulo – através da Política Estadual de Mudanças Climáticas (PEMC) - é pioneira, convêm pensar a questão do ordenamento do planejamento, que atualmente vive uma clara contradição. A Escola do planejamento surgiu no século XX, na União Soviética, que tinha como único instrumento técnico à mão o ábaco . Hoje, paradoxalmente, a sociedade dispõe de computadores que multiplicam as possibilidades técnicas para o planejamento, mas não os utiliza de forma eficiente.

O planejamento está desmoralizado e poucas universidades o ensinam. Não se trata do planejamento que busque um novo regime, mas aquele que considere o regime democrático quadripartite formado por Estado, empresas, trabalhadores, e a sociedade civil organizada a fim de que se busque um diálogo permanente. Novos conceitos e padrões de desempenho também são necessários, como a pegada ecológica, a biocapacidade e o trabalho decente. A partir desses conceitos e através deste diálogo quadripartite é que convêm elaborar estratégias para o futuro que agregue, simultaneamente, os aspectos ambientais e sociais.

Em 2012 o Brasil será pela segunda vez o palco de uma conferencia mundial das Nações Unidas ecoando as duas anteriores, a de Estocolmo, em 1972 e a do Rio de Janeiro, em 1992. A nova Cúpula da Terra de 2012 terá o nome de Conferência do Desenvolvimento e do Meio Ambiente. Isso quer dizer que o mundo precisa de um desenvolvimento que considere o meio ambiente como dimensão e não como objeto atrelado a uma política pública.

Esta condição requer da sociedade quadripartite um grande esforço para chegar nesta nova conferência com propostas. A Agência Brasileira de Instituições Financeiras de Desenvolvimento (ABDE) poderia fomentar estas idéias, a partir da multiplicação das experiências do estado de São Paulo para o Brasil e, a partir daí, para um plano mundial.

Apesar das dificuldades da negociação recente em Copenhagen (COP-15), todos os países integrantes da Organização das Nações Unidas (ONU) se comprometeram a fazer planos de desenvolvimento includente. Este plano tem como base a estratégia mundial de compatibilizar planos e sinergias nacionais de longo prazo baseados no duplo conceito de inclusão social e sustentabilidade tecnológica.

Chegou o momento do Brasil trabalhar o seu plano de desenvolvimento para uma perspectiva de quinze anos, que ao mesmo tempo é suficientemente longa para trabalhar transformações e suficientemente curta para não cair em devaneios.

O Seminário Economia Verde é o primeiro passo nesta direção e o estado de São Paulo está se mostrando pioneiro em propor soluções baseadas na inclusão social e sustentabilidade tecnológica. Ao longo deste caminho será possível verificar como é a transição entre o abstrato e o concreto. A partir do intercâmbio de idéias com outros estados será possível iniciar também trocas internacionais em busca a superação dos desafios esperados à frente.

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No mesmo evento, o doutor em Ciências Físicas pela Universidade de São Paulo, José Goldemberg, também professor titular do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, apresentou algusn dados do seu mais recente estudo “A política estadual de mudanças climáticas: um caminho para a Economia Verde”

De acordo com Goldemberg (Gráfico no. 1), o fornecimento de energia – em grande parte representada pela produção de energias fósseis -- é o principal responsável pelos gases de efeito estufa no mundo, representando 26% do total de emissões, seguido pelo setor industrial (20%), desmatamento (17%), transportes (13%) – no qual se considerou rodoviário, ferroviário e aéreo – e as residências (13%).

A análise dos mesmos dados para o Brasil demonstra que o setor de transporte é o líder de emissões no país, com 40% do ônus total. Trata-se do efeito gerado pelo excessivo transporte de mercadorias e pessoas feito por caminhões e automóveis. Em seguida ficaram o setor industrial (31%), o energético (17%) – que se beneficia da sua matriz limpa da qual fazem parte a energia hidrelétrica e o álcool -, setor residencial (5%) e comercial (1%).

Já no estado de São Paulo, os dados apresentados mostram que a situação para o setor de transportes se agrava ainda mais, cujas emissões representam 56% dos poluentes emitidos à atmosfera. A indústria (30%) foi a segunda do ranking, seguida por residências (6%) e o setor agropecuário (3%).

Segundo os dados de Goldemberg, a situação dos transportes é ainda mais caótica para a cidade de São Paulo registrando 78% das emissões de poluentes no município, ante 10% das residências e 7% das indústrias.

Existem, portanto, inúmeras oportunidades para que as emissões de gases nocivos ao meio ambiente sejam reduzidas. É importante que as linhas de financiamento se concentrem naquelas atividades mais poluentes. Há países, por exemplo, que pagam para que as pessoas substituam carros velhos por carros novos.

Não apenas para benefício do meio ambiente, a necessidade da redução de poluentes também está voltada à melhoria da competitividade das empresas. São Paulo fixou uma meta audaciosa, e isso irá preparar o espaço público para tratar das possíveis resoluções para a crise ambiental por meio das negociações junto aos empresários.

Apesar de importantes, as linhas de crédito para a economia de baixo carbono só se tornarão um fator de competitividade para o país se forem realizados investidos em novas energias e tecnologias. Os centros de excelência do Brasil padecem de pouco investimento. A Linha Economia Verde do fundo Nossa Caixa Desenvolvimento daria grande exemplo para o resto do país se, portanto, também fomentasse esses grandes centros científicos.

Até a próxima

10 de out. de 2009

Plano Ceibal - um laptop por criança no Uruguai



Grupo da terceira idade dança tango em praça em Montevidéu

Marcado pelos ritmos folclóricos do candombe e do tango, o Uruguai, país sul-americano presidido desde 2005 pelo Governo de Tabaré Vázquez – primeiro líder de esquerda no país - decidiu aprovar, em meados de 2007, o Plan Ceibal, que consiste em uma política de inclusão digital que tem como objetivo doar um laptop a cada criança do ensino primário matriculada nas escolas públicas e professores da rede pública do país.

O Uruguai conta hoje com pouco mais de 3,3 milhões de habitantes, dos quais mais de 350 mil são crianças matriculadas em escolas primárias públicas. O nome Ceibal, além de representar a flor estampada na bandeira nacional do Uruguai, também se tornou a sigla para designar Conectividad Educativa de Informática Básica para el Aprendizaje en Línea, que transformou-se no principal apelo deste programa de caráter sócio-educativo.

O projeto faz parte do plano de inclusão e acesso para a sociedade da informação e conhecimento da ANEP (Administração Nacional para a Educação Pública) e tem gerado repercussão mundial. O Uruguai foi o primeiro país a criar um modelo tecnológico de baixo custo interligando máquinas através da conectividade da banda larga gratuita para os seus beneficiários.

Cerca de 1300 computadores vêm sendo distribuídos diariamente pelo país. O projeto piloto teve início em Cardal (Florida), no interior, e foi amplamente dirigido aos demais estados. Em novembro de 2009, após dois anos e meio do início desta iniciativa pioneira, o Plano Ceibal estará prestes a terminar, na capital Montevidéu, a entrega de todos os cerca de 390 mil pequenos laptops planejados, para estudantes e professores do ensino primário público do Uruguai.


Crianças interagem com o laptop XO

A viabilidade e desenvolvimento tecnológico do Plan Ceibal ficaram a cargo do Laboratório Técnico do Uruguai (LATU), que desenvolveu as máquinas (laptop XO) e tele centros de apoio para manutenção e reparos dos materiais, e a agência reguladora de telecomunicações uruguaia ANTEL, que subsidiou a conectividade. Coube ao Ministério da Educação e Cultura a identificação, orientação e capacitação pedagógica para a sua elaboração, além da participação de outros agentes do governo local e, sobretudo, de um grupo heterogêneo de voluntários organizados para dar suporte às ações planejadas.

Com custo estimado de US$ 100 por computador, o projeto para máquinas foi estimado em pouco mais de US$ 40 milhões. Dados consolidados da ANII (Agencia Nacional de la Investigación y la Innovación) e da Câmara das Indústrias do Uruguay inferem que US$ 8,4 milhões e US$ 16,5 milhões já foram desembolsados nos anos 2007 e 2008, respectivamente, ficando a cargo de 2009 os restantes US$ 15 milhões.

Além da equidade educacional proporcionada pelo Plano Ceibal, o Uruguai faz uma clara demonstração aos mundo da sua intenção em abrir as portas para o futuro da sua juventude eliminando a marginalidade e melhorando sua competência social.

Os próximos passos são realizar, em parceria com o Teleton, uma adequação da tecnologia a ser oferecido às crianças portadoras de deficiências físicas e mentais, substituir máquinas e equipamentos que tem vida útil de apenas três anos, a melhoria do conteúdo didático disponível e, também, aumentar a eficiência da conexão, que hoje não suporta mais de trinta computadores conectados simultaneamente em um mesmo ponto de conectividade.

Dentre os aspectos fortes e fracos analisados, não há como ficar indiferente à proposta, bem como não se sensibilizar com esta ação em detrimento do desenvolvimento econômico deste país. E se há tristeza neste plano, esta fica a cargo das crianças matriculadas nas escolas particulares e os seus pais que, infelizmente, não foram contemplados por esta medida.

Até a próxima,

Rodrigo

Referências:
http://www.ceibal.edu.uy/

http://3vectores.com.ar/blog/2008/10/inclusion-digital-en-uruguay/

http://wiki.laptop.org/go/OLPC_Uruguay/Ceibal

http://latu21.latu.org.uy/es/index.php?option=com_content&view=article&id=371:uruguay-como-referencia-en-la-produccion-de-contenidos-educativos-digitales&catid=35:noticias-de-latu&Itemid=263

http://www.ciu.com.uy/innovaportal/file/IMEQ%20N%C2%BA%208-%204%C2%BA%20Trim%202008.pdf?contentid=14490&version=1&filename=IMEQ%20N%BA%208-%204%BA%20Trim%202008.pdf

http://docs.biotecsur.org/informes/pt/inventario/7_financiamiento_ms.pdf

22 de ago. de 2009

Para, pará, parou!

É mesmo inconcebível pensar uma cidade como São Paulo sem vias para transportes alternativos, como bicicletas, skates e patins. O looby das montadoras é tamanho, que o governo não consegue medir esforços para oferecer opções baratas de transporte que maximizem o bem-estar da população.
ilustração: "Engarrafamento" - Alexandre Affonso

De acordo com os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a cidade de São Paulo conta hoje com pouco mais de 11 milhões de habitantes e 6 milhões de veículos (Folha online 2008 (http://www1.folha.uol.com.br/folha/%20cotidiano/ult95u374438.shtml), perfazendo a média de um veículo para quase um habitante e meio. Mas estes números, por si só, não seriam alarmantes se a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) registrasse baixos índices de trânsito na cidade.

O congestionamento de veículos na região metropolitana, pelo contrário, é recorrente. Não são apenas os horários de pico que estão comprometidos, mas também os sábados e infelizmente os domingos. Em maio de 2009, São Paulo registrou o seu novo recorde de lentidão na época, com 293 km de vias congestionadas por volta das 19hs daquele dia.

Desde 1996, a Prefeitura adota medidas paleativas para amenizar os problemas causados pelo trânsito, como a adoção do Rodízio Municipal, a restrição de estacionamentos (Zona Azul) e de circulação de caminhões e veículos de carga.

No entanto, não é necessário que ninguém seja um expert para perceber o óbvio! Segundo o princípio de exclusão de Pauli, "dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço". Quando há limite de espaço ou de vias, portanto, a inclusão de novos veículos fará com que a cidade pare.

Na verdade, a cidade já parou. Ao menos é o que mostra a repostagem "São Paulo, a cidade lenta" feita pelo G1 de 17 a 21 de agosto de 2009, quando foram medidos índices de lentidão, poluição sonora e visual e alternativas para o trânsito na cidade (http://g1.globo.com/Sites/Especiais/0,,17396,00.html).

De fato, a cidade carece de alternativas e novos paradigmas. São Paulo tem atualmente menos de 35 km de ciclovias não interligadas. Destas, 19 km encontram-se em parques (Ibirapuera, Anhanguera e Carmo) e o restante em ruas e avenidas distantes da região central da cidade, onde se localizam os maiores problemas de trânsito.

ilustração: "Bicicleta" - Leila Pugnaloni


No último 18 de agosto, a jornalista Renata Falzoni destacou no seu blog aquilo que seria quase que um pedido de socorro dos cicloativistas para a construção de ciclovias na cidade (http://espnbrasil.terra.com.br/renatafalzoni/). Segundo um levantamento do cicloativista Henrique Boney, "São Paulo tem 367 ciclovias no papel sendo que destas, 275 deveriam estar prontas em 2006 e o resto em 2012 tudo isso previsto em Planos Estratégicos das Sub Prefeituras (...) Quantos quilômetros desse plano foram executados até agora? Zero" (http://www.ciclobr.com.br/).

Ruas para carros, carros para o trânsito, e este para aumentar o stress do cidadão. Mas quem anda a pé, de skate, patins ou bicicleta, caminha mais feliz. O incentivo ao transporte alternativo não apenas impulsionaria investimentos para a cidade, como contemplaria o desenvolvimento sustentável da região tornando São Paulo um centro de excelência em práticas de bem-estar social. Mais saúde, mais investimentos e um respeito singular ao meio ambiente.

A cidade parou e pede socorro. Cabe ao governo e à sociedade civil ajudá-la.

10 de ago. de 2009

Coisas Humanas


fotoDesigualdade - Sebastião Salgado
Tanto mais a sociedade moderna evolui, mais arcaica parece se tornar. Refiro-me a relação entre os homens. Não só os livros são deixados de lado, mas as reflexões são banalizadas pelas telenovelas, e a ignorância se torna cada vez mais presente no cotidiano. Não se trata apenas das telenovelas, mas da quase totalidade televisiva oferecida à massa, manobrável. O marketing de guerra - ou seja, aquele destrutível - é o ícone da decadência popular. As relações humanas são cada vez mais baseadas nas coisas. Os homens, então, não se relacionam entre eles, mas com os seus smartphones, blue-rays, com seus carros, sapatos, com o "esculturismo" na ponta do seu nariz, enfim, com a mercadoria a sua volta e se deixado levar pelo seu feitiço secreto. A vida se tornou exageradamente materializada, e pouca importância foi dada ao indivíduo, massacrado o suficiente para ter de pensar. O ser, o igual, o próximo, se tornou, nesta fase, uma mercadoria aguda do Capitalismo. Especialmente após os anos 80, o processo de globalização financeira abarcou o mesmo modo de produção não apenas no eixo Ocidental do Globo, mas também às sociedades asiáticas antigas. Pela primeira vez a História testemunhou um mesmo tipo de relação social imposto aos quatro cantos do mundo. Esta relação é fundamentada entre homem e não-homens, mas coisas, e vislumbra ser ainda mais inerente ao processo de decadência da modernidade, inicialmente descrita por K. Marx no ensaio sobre o caráter fetichista da mercadoria e seu segredo: "não é mais nada que determina relação entre os próprios homens que para eles aqui assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas" (MARX, Karl, O Capital, capítulo I, seção 4, 1867). Algo sério e alarmante está diante dos olhos dos que se atem. É chegada à hora da mudança, que lenta e penosa, dará início a um processo de transição na história moderna. Assim como o Mercantilismo foi, na transição do Feudalismo para o Capitalismo, esta nova transição vislumbrará uma evolução no campo das idéias acerca das relações-humanas, tornando exígua a orientação social dirigida à coisa. É esperado um novo tipo de organização produtiva baseado em relações entre gente. Um modelo em ebulição, que só poderá aparecer quando as circunstâncias da vida prática dos homens representarem relações transparentes e racionais entre si, e com a natureza. A massa não será mais manobrável, se é que existirá. "A figura do processo social da vida, isto é, o processo da produção material, apenas se desprenderá do seu místico véu nebuloso quando, como produto de homens livremente socializados, ela ficar sob o seu controle consciente e planejado" (Op. Cit.). O novo homem, portanto, não se deixará mais levar pelo caráter humano das coisas, mas pelo caráter humano dos homens, e se falhar, chegará o dia em que ele nada mais encontrará, senão que a sua própria ilusão.

Rodrigo

22 de fev. de 2009

Vou-me embora rumo ao sustentável!

Foto: "Exodus" - Sebastião Salgado
De que há crise ou esgotamento do sistema capitalista, disso não resta dúvida. Não se trata de um colapso, mas de uma falência em que se observa o aumento produtivo gerando grandes mazelas sociais e ambientais. Aos homens não vale rezar, mas pensar além da caixa, para alguma solução que possa minimizar, ou, até mesmo aniquilar tamanhos déficits. O conceito de desenvolvimento sustentável traz, neste sentido, uma alternativa para se pensar o crescimento econômico através da máxima eficiência no uso dos recursos existentes na terra.


Nem mesmo os altos padrões de consumo existentes nos países desenvolvidos têm sido capazes de frear a fome, o desemprego, as guerras, o incessante desmatamento da região dos trópicos e as ondas de aquecimento global nos pólos. Não se trata aqui de uma defesa ao socialismo já derrotado, mas uma crítica a um modelo em falência que gera destruição e a aniquilação da biodiversidade na terra.

Ao pensar o desenvolvimento na Era do Meio-ambiente, é chegada a hora de o homem parar com os dogmatismos e miopias de curto-prazo e pensar o processo produtivo através do aproveitamento racional da natureza, incorporado seu valor á nova cadeia. Trata-se do rumo a uma moderna civilização baseada em biomassa, cujos recursos presentes na biodiversidade são tratados eficientemente pela biotecnologia.

Desde a conferência de Estocolmo, em 1972, o professor Ignacy Sachs vem alertando sobre essa problemática, a qual designou mais tarde "ecosocioeconomia". Não por menos, entendeu o processo pela harmonia entre os agentes produtivos: ecologia, sociedade e economia. Na época, porém, o embate entre os ortodoxos econômicos e pessimistas do meio-ambiente era tamanho, que pouca importância foi referida ao tema.

É mesmo irônico pensar que a Economia, uma ciência social arraigada fundamentalmente na evolução histórica, siga em sentido contrário àquele de tantas outras disciplinas científicas que buscam grau de excelência. Ao trabalhar em prol do desenvolvimento selvagem e do crescimento perverso que busca o lucro do lasseiz-faire como última instância, não é mesmo de se admirar que se tornasse uma ciência sombria.

Sachs sugere o retorno a Economia Política e a existência de um planejamento negociado e contratual dos recursos naturais, simultaneamente aberto para as preocupações ambientais, sociais e econômicas. Sobretudo nos países em desenvolvimento, que detém condições climáticas propícias à abundância dos recursos naturais, há a oportunidade de se pular etapas e definir novas tendências mundiais a serem seguidas.

Ao Estado cabe o papel fundamental de fiscalizar, subsidiar e corrigir as deficiências, de modo a projetar e produzir estratégias dimensionadas para o aproveitamento dos recursos sustentáveis em demérito à utilização em grande escala de combustíveis fósseis, transporte rodoviário, energia nuclear e pesca ilimitada.

O desenvolvimento sustentável traz à tona a necessidade do pensamento multidisciplinar como oportunidade de salvação, ou ao menos, redução dos diversos danos e custos causados durante todos esses anos à sociedade e a natureza. Faz-se necessário uma combinação entre Ecologia e Economia, pois enquanto as ciências naturais descrevem quais os recursos necessários para um mundo sustentável, as ciências sociais articulam as estratégias de transição rumo a este caminho.


Rodrigo Hisgail Nogueira

24 de jan. de 2009

Permacultura na Jordânia


Sistema de agricultura sustentável implantado em Al Jowfa
A permacultura, um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente atrativos foi criada pelos ecologistas australianos Bill Molison e David Homegren na década de 1970.

Entre as suas principais vertentes pode-se citar fontes de energia renováveis, construção de casas ecológicas, sistemas de reciclagem de esgoto, reutilização da água e agricultura sustentável, sendo está ultima a principal técnica utilizada na Jordânia.

Em uma visita a pequena aldeia de Al Jowfa, na Jordânia, a cinqüenta quilômetros da capital Amã, o australiano e discípulo de Molison, Geoff Lawton, então casado com a jordaniana Nadia, decidiu buscar alternativas para modular um projeto de agricultura sustentável na região.

Situada próxima à porção oriental do mar morto, e caracterizada por relevo irregular e clima desértico ou semi-árido, a região de Jowfa sofre com a escassez de água para uso doméstico e para a irrigação. A água tratada é trazida em caminhões-pipa e o seu uso é feito com muito rigor e sabedoria. A fim de reduzir o volume de água costumeiramente necessária para irrigação das plantações, Lawton propôs a um grupo de agricultores que participassem das aulas ministradas por ele a fim de discutirem sobre métodos alternativos de irrigação e agricultura sustentável.

As técnicas usadas eram bastante simples, customizadas e totalmente adaptadas a realidade local, motivo pelo qual o curso obteve grande número de adeptos. Dentre as práticas, Lawton propôs três ideais centrais.
A primeira consistiu na terraplanagem dos planaltos que formavam degraus separados por paredes de pedras para retenção da água da chuva. A segunda diz respeito ao uso de matéria orgânica preparada por meio de composteiras para enriquecimento, manutenção da temperatura e retenção da água no solo. A última, certamente a mais onerosa e utilizada de forma pioneira no país vizinho, Israel, é a técnica de irrigação por gotejamento, garantindo a maximização da utilização da água por semente plantada.

Finda a parte teórica, apenas alguns poucos agricultores puderam disponibilizar de capital para colocar em prática a nova proposta, acarretando customização de gastos ao longo dos anos. Segundo os agricultores Abdala, Mohmmed e Heil, que possuem uma vasta plantação de bananas comercializadas para a capital do país, o uso da permacultura reduziu em até dez vezes os custos operacionais do negócio, tendo ainda o benefício da não agressão ao solo por meio de materiais nocivos, como os agrotóxicos.

Não preciso dizer que a experiência foi magnífica. Infelizmente a falta de patrocínio e incentivo tanto público como privado não permite com que trabalhadores dediquem-se integralmente a esta atividade, ainda onerosa para os padrões locais de um povo sacrificado. Contudo, a proposta foi colocada em prática e já vem gerando frutos para o início de outros projetos na região. Fica aí mais uma idéia de qualidade e de bem com o meio-ambiente.

Até a próxima,

6 de out. de 2008

Esgotamento ou salvação do Sistema Capitalista?


Foto: Sebastião Salgado
 A recente crise que se espalhou pelas maiores economias do mundo durante o segundo semestre de 2008 tem deixado grandes seqüelas por onde passa. O que não se sabe é se o seu estrago já tem data para terminar, ou se sua semente levará tempo a germinar.

A crise das hipotecas que se instaurou nos Estados Unidos no início de 2007 gerou conseqüências para a economia mundial. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), as instituições financeiras do globo reportaram perdas de quase US$ 1,4 trilhão até julho de 2008.

Após os mutuários norte-americanos terem ficado sem emprego e tido as suas casas tomadas por conta da inadimplência dos recursos emprestados, agora foi a vez da Zona do Euro ter registrado perdas envolvidas à recessão mundial. Igualmente, imigrantes que aí vivem já começam a deixar suas casas e retornam aos seus países fugindo das condições limites e o aumento do desemprego na região.

As seqüelas que tiveram origem no mercado financeiro norte-americana tornam-se cada vez mais nítidas na economia real e criam hoje uma situação de insegurança extrema até mesmo nas economias chamadas emergentes, cujas pegadas ainda não foram claramente rastreadas.

Com razão, o fenômeno da globalização financeira, que se manifestou no último quarto do século vinte, tornou os mercados tão interligados que passou a determinar um quadro de liquidez e volatilidade sem precedentes na história econômica mundial. Com a crescente interdependência entre os países, o desafio dos bancos centrais e dos órgãos multilaterais para a gestão da (des)ordem econômica tornou-se ainda maior.

Em um cenário ao que parece tão pouco promissor, a dúvida que fica é: quando essa crise chegará de vez ao Brasil? Será que apesar de todas as ações tomadas pelos agentes econômicos mundiais - dentre as quais as principais foram o acordo de US$ 700 bilhões de dólares de empréstimo do Tesouro americano ao sistema financeiro e os 50 bilhões de Euros do BCE com o mesmo propósito na Zona do Euro – haverá meios para por fim a recessão que se instaura no mundo? Ou esta crise veio mesmo para ficar e por fim ao sistema capitalista tal qual se é conhecido?

Por um lado, a clara supremacia do dólar norte-americano permite que este país continue a financiar sua dívida sendo uma espécie de credor e devedor simultaneamente. Trata-se de uma espécie de fundo perdido com o qual a economia norte-americana cria condições de viabilizar o financiamento da globalização comercial e produtiva, ao passo que potencializa a volatilidade e a instabilidade dos mercados financeiros globais.

A alternativa aos países não emissores de moedas conversíveis foi apenas uma: adotar uma clara estratégia de acumulação de suas reservas cambiais, que hoje superam os US$ 7 trilhões, como meio de resistir a um difícil momento na conjuntura mundial. Isto significa que em uma situação de recessão, as economias que acumularam reservas, como é o caso do Brasil (aproximadamente US$ 200 bilhões) apresentam uma gordura extra a ser queimada, antes mesmo que torrem com a sua carne.

Ao passo que os recursos angariados sejam corretamente aplicados, a tendência é de que ocorra uma reorganização do sistema financeiro mundial garantindo a salvação e um novo fôlego à economia mundial. Enquanto isso, uma das medidas que cabe ao Brasil para se resguardar neste momento é a de utilizar esta reserva como ferramenta de crédito interno até que a ressaca mundial seja finalmente curada.

Por outro lado, ainda não se sabe ao certo se todas as mazelas desta crise já passaram mesmo com as ações tomadas pelos agentes reguladores mundiais, ou se estas ainda estão por vir e com que intensidade. Algumas correntes, por exemplo, afirmam que tais medidas de socorro aos bancos só adiam um problema inerente ao Sistema Capitalista, a acumulação de capital.

A incapacidade de financiamento da sua máquina motora, a instituição financeira, trará um momento de profunda recessão a qual nenhum mercado deverá escapar. Semelhante ou não à crise dos anos 1929, a nova tensão causará pânico e desordem social. Maior em volume e lenta em velocidade, o rearranjo do sistema econômico deverá ocorrer em alguma base, possivelmente diferente a esta do "hipercapitalismo predatório" ao qual hoje se conhece, que então estará esgotado.