Abas/ guias

17 de mar. de 2010

Seminário Economia Verde

No último dia 15 de março de 2010 foi realizado no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, o Seminário Economia Verde. O evento comemorou o aniversário de um ano da agência de fomento Nossa Caixa Desenvolvimento que lançou, com base na Política Estadual de Mudanças Climáticas (PEMC - Lei 13.798), uma nova modalidade de financiamento, chamada Linha Economia Verde, destinada às pequenas e médias empresas paulistas que, por meio de processos produtivos menos poluentes, se comprometerem a reduzir a emissão dos gases causadores do efeito estufa. Aprovada em 2009 pelo governo do estado de São Paulo, a PEMC prevê a meta para redução de 20% de gases de efeito estufa na região até 2020.

O evento foi dividido em duas partes. A primeira contou com a conferência do Professor Ignacy Sachs, que destacou a necessidade de pensar simultaneamente à defesa do meio ambiente e da sociedade como meio para o desenvolvimento mundial durante o terceiro estágio da transição terrestre que está em curso.
A segunda parte contou com a participação de alguns especialistas que apontaram para os desafios e às possíveis soluções para enfrentar as dificuldades da crise ambiental que se propaga no mundo. Ignacy Sachs é economista especialista na área das ciências sociais. Diretor do Centro de Pesquisas do Brasil Contemporâneo na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais, em Paris. É o cvriador um dos criadores do conceito ecosocioeconomia.

Segue abaixo os principais trechos da palestra do Professor Sachs que, inicialmente, parabenizou o estado de São Paulo por representar a vanguarda do debate mundial sobre como fazer coisas que permitam reduzir os impactos ambientais e, ao mesmo tempo, avançar nos problemas sociais.

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No início do século XXI o mundo enfrenta dois grandes desafios que não se resumem apenas à questão do meio ambiente, mas também ao seu enorme passivo social. Por isso já é hora de a sociedade parar de pensar nos velhos paradigmas do socialismo real – cujo marco da decadência foi em 1989 com a queda do muro de Berlim – e do mito dos mercados que se alto regulam, o laissez faire – que se mostrou esgotado a partir da crise financeira mundial iniciada em 2008 cujo marco foi a quebra do banco de investimentos Lehman Bothers.

A obrigação da sociedade neste momento é pensar, portanto, como estes dois desafios podem ser enfrentados simultaneamente. Neste contexto convêm avaliar a iniciativa da Nossa Caixa Desenvolvimento de gerar novas linhas de crédito não só para mitigar a emissão dos gases de efeito estufa, como também para gerar condições de trabalho decentes à população – através da remuneração da força de trabalho de forma digna, de acordo com a situação de cada economia e demais elementos qualitativos.

A sociedade vive um momento bastante excepcional, pois não só enfrenta a crise financeira, como também a crise ambiental e o modelo da globalização. Isso leva a repensar as estratégias de desenvolvimento tomando como ponto de partida o pensamento do argentino Aldo Ferrer e do chileno Osvando Sunkel. Não se trata de propor a autarquia, mas de repensar soluções a partir daquilo que existe ao alcance das mãos, ao redor, lembrando que esta crise ambiental é um assunto especial.

O mundo está entrando no começo da terceira grande transição da evolução da espécie humana. Há cerca de doze mil anos houve a primeira, a neolítica, marcada pela domesticação das espécies vegetais e animais, a sedentarizarão das tribos e o primórdio da civilização. A segunda foi em meados do século XVIII a partir da utilização das energias fosseis e das revoluções industriais que se seguiram.

Hoje, no início do século XXI, a explosão da população humana no planeta e as mudanças climáticas que o ameaçam são o início da terceira grande transição. Por isso é necessário que a sociedade dê conta de atacar simultaneamente a crise ambiental, financeira e repensar o conceito da economia global, que se caracteriza neste momento pelo uso de transportes pouco úteis e por um grupo de países que se beneficiam ao custo do prejuízo de outros.

Para onde queremos ir afinal? Onde estão as margens de liberdade que a sociedade enfrenta hoje? Para este novo curso é necessário, em primeiro lugar, que as redes universais de serviços sociais (educação, saúde, saneamento, habitação popular) sejam garantidas a partir da possibilidade de um estado desenvolvimentista livre da ação do mercado.

Em segundo, é preciso que haja ampliação do perímetro daquilo que no Brasil se conhece como economia solidária e que na Europa se chama economia social. Autarquias, empresas para-estatais, Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs), dentre outras que não se regem pela apropriação privada do lucro devem ter um perímetro maior de atuação segundo as políticas a que se aplicam.

Finalmente, a terceira condição necessária para enfrentar este desafio é a construção de uma economia verde. Ela deve ser capaz de reduzir os impactos ambientais e os gases do efeito estufa - que ameaçam uma mudança climática irreversível e deletéria - conjugada com o maior número de oportunidades de trabalhos descentes.

O paradigma enérgico é um elemento central nesta produção. Não se trata apenas da troca de energias fósseis por energias limpas e renováveis, mas, sobretudo pela alteração do seu padrão de consumo, através da maior sobriedade da população. Isso significa mexer com os estilos de vida, como o uso dos meios de transportes, dentre outros que possam ser mais ou menos necessários ao cotidiano.

Na França, por exemplo, Sachs diz poder atravessar um inverno europeu sem o consumo de cerejas, mesmo sabendo da possibilidade de importá-las do Chile, para que haja economia de recursos. Este é um exemplo que pode ser facilmente generalizado. É necessário, portanto, que a sociedade pense na questão da eficiência energética como forma de aprimorar e substituir o seu uso, através da substituição das energias fósseis pelas renováveis, como eólica, dos mares, e a bioenergia.

Países tropicais, como o Brasil, são particularmente beneficiados pelo clima, pelas “terras da boa esperança”, que estão predestinadas a construir as “biocivilizações do futuro”. A biomassa é, afinal, alimento humano, ração para animais e adubo para plantações. Trata-se do mundo que está por ser conquistado. Nessa direção convêm reestruturar a economia para uma economia verde que aproveite ao máximo estes recursos renováveis, gerando um grande número de empregos.

Para avançar nesta direção cuja iniciativa do governo de São Paulo – através da Política Estadual de Mudanças Climáticas (PEMC) - é pioneira, convêm pensar a questão do ordenamento do planejamento, que atualmente vive uma clara contradição. A Escola do planejamento surgiu no século XX, na União Soviética, que tinha como único instrumento técnico à mão o ábaco . Hoje, paradoxalmente, a sociedade dispõe de computadores que multiplicam as possibilidades técnicas para o planejamento, mas não os utiliza de forma eficiente.

O planejamento está desmoralizado e poucas universidades o ensinam. Não se trata do planejamento que busque um novo regime, mas aquele que considere o regime democrático quadripartite formado por Estado, empresas, trabalhadores, e a sociedade civil organizada a fim de que se busque um diálogo permanente. Novos conceitos e padrões de desempenho também são necessários, como a pegada ecológica, a biocapacidade e o trabalho decente. A partir desses conceitos e através deste diálogo quadripartite é que convêm elaborar estratégias para o futuro que agregue, simultaneamente, os aspectos ambientais e sociais.

Em 2012 o Brasil será pela segunda vez o palco de uma conferencia mundial das Nações Unidas ecoando as duas anteriores, a de Estocolmo, em 1972 e a do Rio de Janeiro, em 1992. A nova Cúpula da Terra de 2012 terá o nome de Conferência do Desenvolvimento e do Meio Ambiente. Isso quer dizer que o mundo precisa de um desenvolvimento que considere o meio ambiente como dimensão e não como objeto atrelado a uma política pública.

Esta condição requer da sociedade quadripartite um grande esforço para chegar nesta nova conferência com propostas. A Agência Brasileira de Instituições Financeiras de Desenvolvimento (ABDE) poderia fomentar estas idéias, a partir da multiplicação das experiências do estado de São Paulo para o Brasil e, a partir daí, para um plano mundial.

Apesar das dificuldades da negociação recente em Copenhagen (COP-15), todos os países integrantes da Organização das Nações Unidas (ONU) se comprometeram a fazer planos de desenvolvimento includente. Este plano tem como base a estratégia mundial de compatibilizar planos e sinergias nacionais de longo prazo baseados no duplo conceito de inclusão social e sustentabilidade tecnológica.

Chegou o momento do Brasil trabalhar o seu plano de desenvolvimento para uma perspectiva de quinze anos, que ao mesmo tempo é suficientemente longa para trabalhar transformações e suficientemente curta para não cair em devaneios.

O Seminário Economia Verde é o primeiro passo nesta direção e o estado de São Paulo está se mostrando pioneiro em propor soluções baseadas na inclusão social e sustentabilidade tecnológica. Ao longo deste caminho será possível verificar como é a transição entre o abstrato e o concreto. A partir do intercâmbio de idéias com outros estados será possível iniciar também trocas internacionais em busca a superação dos desafios esperados à frente.

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No mesmo evento, o doutor em Ciências Físicas pela Universidade de São Paulo, José Goldemberg, também professor titular do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, apresentou algusn dados do seu mais recente estudo “A política estadual de mudanças climáticas: um caminho para a Economia Verde”

De acordo com Goldemberg (Gráfico no. 1), o fornecimento de energia – em grande parte representada pela produção de energias fósseis -- é o principal responsável pelos gases de efeito estufa no mundo, representando 26% do total de emissões, seguido pelo setor industrial (20%), desmatamento (17%), transportes (13%) – no qual se considerou rodoviário, ferroviário e aéreo – e as residências (13%).

A análise dos mesmos dados para o Brasil demonstra que o setor de transporte é o líder de emissões no país, com 40% do ônus total. Trata-se do efeito gerado pelo excessivo transporte de mercadorias e pessoas feito por caminhões e automóveis. Em seguida ficaram o setor industrial (31%), o energético (17%) – que se beneficia da sua matriz limpa da qual fazem parte a energia hidrelétrica e o álcool -, setor residencial (5%) e comercial (1%).

Já no estado de São Paulo, os dados apresentados mostram que a situação para o setor de transportes se agrava ainda mais, cujas emissões representam 56% dos poluentes emitidos à atmosfera. A indústria (30%) foi a segunda do ranking, seguida por residências (6%) e o setor agropecuário (3%).

Segundo os dados de Goldemberg, a situação dos transportes é ainda mais caótica para a cidade de São Paulo registrando 78% das emissões de poluentes no município, ante 10% das residências e 7% das indústrias.

Existem, portanto, inúmeras oportunidades para que as emissões de gases nocivos ao meio ambiente sejam reduzidas. É importante que as linhas de financiamento se concentrem naquelas atividades mais poluentes. Há países, por exemplo, que pagam para que as pessoas substituam carros velhos por carros novos.

Não apenas para benefício do meio ambiente, a necessidade da redução de poluentes também está voltada à melhoria da competitividade das empresas. São Paulo fixou uma meta audaciosa, e isso irá preparar o espaço público para tratar das possíveis resoluções para a crise ambiental por meio das negociações junto aos empresários.

Apesar de importantes, as linhas de crédito para a economia de baixo carbono só se tornarão um fator de competitividade para o país se forem realizados investidos em novas energias e tecnologias. Os centros de excelência do Brasil padecem de pouco investimento. A Linha Economia Verde do fundo Nossa Caixa Desenvolvimento daria grande exemplo para o resto do país se, portanto, também fomentasse esses grandes centros científicos.

Até a próxima

10 de out. de 2009

Plano Ceibal - um laptop por criança no Uruguai



Grupo da terceira idade dança tango em praça em Montevidéu

Marcado pelos ritmos folclóricos do candombe e do tango, o Uruguai, país sul-americano presidido desde 2005 pelo Governo de Tabaré Vázquez – primeiro líder de esquerda no país - decidiu aprovar, em meados de 2007, o Plan Ceibal, que consiste em uma política de inclusão digital que tem como objetivo doar um laptop a cada criança do ensino primário matriculada nas escolas públicas e professores da rede pública do país.

O Uruguai conta hoje com pouco mais de 3,3 milhões de habitantes, dos quais mais de 350 mil são crianças matriculadas em escolas primárias públicas. O nome Ceibal, além de representar a flor estampada na bandeira nacional do Uruguai, também se tornou a sigla para designar Conectividad Educativa de Informática Básica para el Aprendizaje en Línea, que transformou-se no principal apelo deste programa de caráter sócio-educativo.

O projeto faz parte do plano de inclusão e acesso para a sociedade da informação e conhecimento da ANEP (Administração Nacional para a Educação Pública) e tem gerado repercussão mundial. O Uruguai foi o primeiro país a criar um modelo tecnológico de baixo custo interligando máquinas através da conectividade da banda larga gratuita para os seus beneficiários.

Cerca de 1300 computadores vêm sendo distribuídos diariamente pelo país. O projeto piloto teve início em Cardal (Florida), no interior, e foi amplamente dirigido aos demais estados. Em novembro de 2009, após dois anos e meio do início desta iniciativa pioneira, o Plano Ceibal estará prestes a terminar, na capital Montevidéu, a entrega de todos os cerca de 390 mil pequenos laptops planejados, para estudantes e professores do ensino primário público do Uruguai.


Crianças interagem com o laptop XO

A viabilidade e desenvolvimento tecnológico do Plan Ceibal ficaram a cargo do Laboratório Técnico do Uruguai (LATU), que desenvolveu as máquinas (laptop XO) e tele centros de apoio para manutenção e reparos dos materiais, e a agência reguladora de telecomunicações uruguaia ANTEL, que subsidiou a conectividade. Coube ao Ministério da Educação e Cultura a identificação, orientação e capacitação pedagógica para a sua elaboração, além da participação de outros agentes do governo local e, sobretudo, de um grupo heterogêneo de voluntários organizados para dar suporte às ações planejadas.

Com custo estimado de US$ 100 por computador, o projeto para máquinas foi estimado em pouco mais de US$ 40 milhões. Dados consolidados da ANII (Agencia Nacional de la Investigación y la Innovación) e da Câmara das Indústrias do Uruguay inferem que US$ 8,4 milhões e US$ 16,5 milhões já foram desembolsados nos anos 2007 e 2008, respectivamente, ficando a cargo de 2009 os restantes US$ 15 milhões.

Além da equidade educacional proporcionada pelo Plano Ceibal, o Uruguai faz uma clara demonstração aos mundo da sua intenção em abrir as portas para o futuro da sua juventude eliminando a marginalidade e melhorando sua competência social.

Os próximos passos são realizar, em parceria com o Teleton, uma adequação da tecnologia a ser oferecido às crianças portadoras de deficiências físicas e mentais, substituir máquinas e equipamentos que tem vida útil de apenas três anos, a melhoria do conteúdo didático disponível e, também, aumentar a eficiência da conexão, que hoje não suporta mais de trinta computadores conectados simultaneamente em um mesmo ponto de conectividade.

Dentre os aspectos fortes e fracos analisados, não há como ficar indiferente à proposta, bem como não se sensibilizar com esta ação em detrimento do desenvolvimento econômico deste país. E se há tristeza neste plano, esta fica a cargo das crianças matriculadas nas escolas particulares e os seus pais que, infelizmente, não foram contemplados por esta medida.

Até a próxima,

Rodrigo

Referências:
http://www.ceibal.edu.uy/

http://3vectores.com.ar/blog/2008/10/inclusion-digital-en-uruguay/

http://wiki.laptop.org/go/OLPC_Uruguay/Ceibal

http://latu21.latu.org.uy/es/index.php?option=com_content&view=article&id=371:uruguay-como-referencia-en-la-produccion-de-contenidos-educativos-digitales&catid=35:noticias-de-latu&Itemid=263

http://www.ciu.com.uy/innovaportal/file/IMEQ%20N%C2%BA%208-%204%C2%BA%20Trim%202008.pdf?contentid=14490&version=1&filename=IMEQ%20N%BA%208-%204%BA%20Trim%202008.pdf

http://docs.biotecsur.org/informes/pt/inventario/7_financiamiento_ms.pdf

22 de ago. de 2009

Para, pará, parou!

É mesmo inconcebível pensar uma cidade como São Paulo sem vias para transportes alternativos, como bicicletas, skates e patins. O looby das montadoras é tamanho, que o governo não consegue medir esforços para oferecer opções baratas de transporte que maximizem o bem-estar da população.
ilustração: "Engarrafamento" - Alexandre Affonso

De acordo com os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a cidade de São Paulo conta hoje com pouco mais de 11 milhões de habitantes e 6 milhões de veículos (Folha online 2008 (http://www1.folha.uol.com.br/folha/%20cotidiano/ult95u374438.shtml), perfazendo a média de um veículo para quase um habitante e meio. Mas estes números, por si só, não seriam alarmantes se a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) registrasse baixos índices de trânsito na cidade.

O congestionamento de veículos na região metropolitana, pelo contrário, é recorrente. Não são apenas os horários de pico que estão comprometidos, mas também os sábados e infelizmente os domingos. Em maio de 2009, São Paulo registrou o seu novo recorde de lentidão na época, com 293 km de vias congestionadas por volta das 19hs daquele dia.

Desde 1996, a Prefeitura adota medidas paleativas para amenizar os problemas causados pelo trânsito, como a adoção do Rodízio Municipal, a restrição de estacionamentos (Zona Azul) e de circulação de caminhões e veículos de carga.

No entanto, não é necessário que ninguém seja um expert para perceber o óbvio! Segundo o princípio de exclusão de Pauli, "dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço". Quando há limite de espaço ou de vias, portanto, a inclusão de novos veículos fará com que a cidade pare.

Na verdade, a cidade já parou. Ao menos é o que mostra a repostagem "São Paulo, a cidade lenta" feita pelo G1 de 17 a 21 de agosto de 2009, quando foram medidos índices de lentidão, poluição sonora e visual e alternativas para o trânsito na cidade (http://g1.globo.com/Sites/Especiais/0,,17396,00.html).

De fato, a cidade carece de alternativas e novos paradigmas. São Paulo tem atualmente menos de 35 km de ciclovias não interligadas. Destas, 19 km encontram-se em parques (Ibirapuera, Anhanguera e Carmo) e o restante em ruas e avenidas distantes da região central da cidade, onde se localizam os maiores problemas de trânsito.

ilustração: "Bicicleta" - Leila Pugnaloni


No último 18 de agosto, a jornalista Renata Falzoni destacou no seu blog aquilo que seria quase que um pedido de socorro dos cicloativistas para a construção de ciclovias na cidade (http://espnbrasil.terra.com.br/renatafalzoni/). Segundo um levantamento do cicloativista Henrique Boney, "São Paulo tem 367 ciclovias no papel sendo que destas, 275 deveriam estar prontas em 2006 e o resto em 2012 tudo isso previsto em Planos Estratégicos das Sub Prefeituras (...) Quantos quilômetros desse plano foram executados até agora? Zero" (http://www.ciclobr.com.br/).

Ruas para carros, carros para o trânsito, e este para aumentar o stress do cidadão. Mas quem anda a pé, de skate, patins ou bicicleta, caminha mais feliz. O incentivo ao transporte alternativo não apenas impulsionaria investimentos para a cidade, como contemplaria o desenvolvimento sustentável da região tornando São Paulo um centro de excelência em práticas de bem-estar social. Mais saúde, mais investimentos e um respeito singular ao meio ambiente.

A cidade parou e pede socorro. Cabe ao governo e à sociedade civil ajudá-la.

10 de ago. de 2009

Coisas Humanas


fotoDesigualdade - Sebastião Salgado
Tanto mais a sociedade moderna evolui, mais arcaica parece se tornar. Refiro-me a relação entre os homens. Não só os livros são deixados de lado, mas as reflexões são banalizadas pelas telenovelas, e a ignorância se torna cada vez mais presente no cotidiano. Não se trata apenas das telenovelas, mas da quase totalidade televisiva oferecida à massa, manobrável. O marketing de guerra - ou seja, aquele destrutível - é o ícone da decadência popular. As relações humanas são cada vez mais baseadas nas coisas. Os homens, então, não se relacionam entre eles, mas com os seus smartphones, blue-rays, com seus carros, sapatos, com o "esculturismo" na ponta do seu nariz, enfim, com a mercadoria a sua volta e se deixado levar pelo seu feitiço secreto. A vida se tornou exageradamente materializada, e pouca importância foi dada ao indivíduo, massacrado o suficiente para ter de pensar. O ser, o igual, o próximo, se tornou, nesta fase, uma mercadoria aguda do Capitalismo. Especialmente após os anos 80, o processo de globalização financeira abarcou o mesmo modo de produção não apenas no eixo Ocidental do Globo, mas também às sociedades asiáticas antigas. Pela primeira vez a História testemunhou um mesmo tipo de relação social imposto aos quatro cantos do mundo. Esta relação é fundamentada entre homem e não-homens, mas coisas, e vislumbra ser ainda mais inerente ao processo de decadência da modernidade, inicialmente descrita por K. Marx no ensaio sobre o caráter fetichista da mercadoria e seu segredo: "não é mais nada que determina relação entre os próprios homens que para eles aqui assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas" (MARX, Karl, O Capital, capítulo I, seção 4, 1867). Algo sério e alarmante está diante dos olhos dos que se atem. É chegada à hora da mudança, que lenta e penosa, dará início a um processo de transição na história moderna. Assim como o Mercantilismo foi, na transição do Feudalismo para o Capitalismo, esta nova transição vislumbrará uma evolução no campo das idéias acerca das relações-humanas, tornando exígua a orientação social dirigida à coisa. É esperado um novo tipo de organização produtiva baseado em relações entre gente. Um modelo em ebulição, que só poderá aparecer quando as circunstâncias da vida prática dos homens representarem relações transparentes e racionais entre si, e com a natureza. A massa não será mais manobrável, se é que existirá. "A figura do processo social da vida, isto é, o processo da produção material, apenas se desprenderá do seu místico véu nebuloso quando, como produto de homens livremente socializados, ela ficar sob o seu controle consciente e planejado" (Op. Cit.). O novo homem, portanto, não se deixará mais levar pelo caráter humano das coisas, mas pelo caráter humano dos homens, e se falhar, chegará o dia em que ele nada mais encontrará, senão que a sua própria ilusão.

Rodrigo

22 de fev. de 2009

Vou-me embora rumo ao sustentável!

Foto: "Exodus" - Sebastião Salgado
De que há crise ou esgotamento do sistema capitalista, disso não resta dúvida. Não se trata de um colapso, mas de uma falência em que se observa o aumento produtivo gerando grandes mazelas sociais e ambientais. Aos homens não vale rezar, mas pensar além da caixa, para alguma solução que possa minimizar, ou, até mesmo aniquilar tamanhos déficits. O conceito de desenvolvimento sustentável traz, neste sentido, uma alternativa para se pensar o crescimento econômico através da máxima eficiência no uso dos recursos existentes na terra.


Nem mesmo os altos padrões de consumo existentes nos países desenvolvidos têm sido capazes de frear a fome, o desemprego, as guerras, o incessante desmatamento da região dos trópicos e as ondas de aquecimento global nos pólos. Não se trata aqui de uma defesa ao socialismo já derrotado, mas uma crítica a um modelo em falência que gera destruição e a aniquilação da biodiversidade na terra.

Ao pensar o desenvolvimento na Era do Meio-ambiente, é chegada a hora de o homem parar com os dogmatismos e miopias de curto-prazo e pensar o processo produtivo através do aproveitamento racional da natureza, incorporado seu valor á nova cadeia. Trata-se do rumo a uma moderna civilização baseada em biomassa, cujos recursos presentes na biodiversidade são tratados eficientemente pela biotecnologia.

Desde a conferência de Estocolmo, em 1972, o professor Ignacy Sachs vem alertando sobre essa problemática, a qual designou mais tarde "ecosocioeconomia". Não por menos, entendeu o processo pela harmonia entre os agentes produtivos: ecologia, sociedade e economia. Na época, porém, o embate entre os ortodoxos econômicos e pessimistas do meio-ambiente era tamanho, que pouca importância foi referida ao tema.

É mesmo irônico pensar que a Economia, uma ciência social arraigada fundamentalmente na evolução histórica, siga em sentido contrário àquele de tantas outras disciplinas científicas que buscam grau de excelência. Ao trabalhar em prol do desenvolvimento selvagem e do crescimento perverso que busca o lucro do lasseiz-faire como última instância, não é mesmo de se admirar que se tornasse uma ciência sombria.

Sachs sugere o retorno a Economia Política e a existência de um planejamento negociado e contratual dos recursos naturais, simultaneamente aberto para as preocupações ambientais, sociais e econômicas. Sobretudo nos países em desenvolvimento, que detém condições climáticas propícias à abundância dos recursos naturais, há a oportunidade de se pular etapas e definir novas tendências mundiais a serem seguidas.

Ao Estado cabe o papel fundamental de fiscalizar, subsidiar e corrigir as deficiências, de modo a projetar e produzir estratégias dimensionadas para o aproveitamento dos recursos sustentáveis em demérito à utilização em grande escala de combustíveis fósseis, transporte rodoviário, energia nuclear e pesca ilimitada.

O desenvolvimento sustentável traz à tona a necessidade do pensamento multidisciplinar como oportunidade de salvação, ou ao menos, redução dos diversos danos e custos causados durante todos esses anos à sociedade e a natureza. Faz-se necessário uma combinação entre Ecologia e Economia, pois enquanto as ciências naturais descrevem quais os recursos necessários para um mundo sustentável, as ciências sociais articulam as estratégias de transição rumo a este caminho.


Rodrigo Hisgail Nogueira

24 de jan. de 2009

Permacultura na Jordânia


Sistema de agricultura sustentável implantado em Al Jowfa
A permacultura, um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente atrativos foi criada pelos ecologistas australianos Bill Molison e David Homegren na década de 1970.

Entre as suas principais vertentes pode-se citar fontes de energia renováveis, construção de casas ecológicas, sistemas de reciclagem de esgoto, reutilização da água e agricultura sustentável, sendo está ultima a principal técnica utilizada na Jordânia.

Em uma visita a pequena aldeia de Al Jowfa, na Jordânia, a cinqüenta quilômetros da capital Amã, o australiano e discípulo de Molison, Geoff Lawton, então casado com a jordaniana Nadia, decidiu buscar alternativas para modular um projeto de agricultura sustentável na região.

Situada próxima à porção oriental do mar morto, e caracterizada por relevo irregular e clima desértico ou semi-árido, a região de Jowfa sofre com a escassez de água para uso doméstico e para a irrigação. A água tratada é trazida em caminhões-pipa e o seu uso é feito com muito rigor e sabedoria. A fim de reduzir o volume de água costumeiramente necessária para irrigação das plantações, Lawton propôs a um grupo de agricultores que participassem das aulas ministradas por ele a fim de discutirem sobre métodos alternativos de irrigação e agricultura sustentável.

As técnicas usadas eram bastante simples, customizadas e totalmente adaptadas a realidade local, motivo pelo qual o curso obteve grande número de adeptos. Dentre as práticas, Lawton propôs três ideais centrais.
A primeira consistiu na terraplanagem dos planaltos que formavam degraus separados por paredes de pedras para retenção da água da chuva. A segunda diz respeito ao uso de matéria orgânica preparada por meio de composteiras para enriquecimento, manutenção da temperatura e retenção da água no solo. A última, certamente a mais onerosa e utilizada de forma pioneira no país vizinho, Israel, é a técnica de irrigação por gotejamento, garantindo a maximização da utilização da água por semente plantada.

Finda a parte teórica, apenas alguns poucos agricultores puderam disponibilizar de capital para colocar em prática a nova proposta, acarretando customização de gastos ao longo dos anos. Segundo os agricultores Abdala, Mohmmed e Heil, que possuem uma vasta plantação de bananas comercializadas para a capital do país, o uso da permacultura reduziu em até dez vezes os custos operacionais do negócio, tendo ainda o benefício da não agressão ao solo por meio de materiais nocivos, como os agrotóxicos.

Não preciso dizer que a experiência foi magnífica. Infelizmente a falta de patrocínio e incentivo tanto público como privado não permite com que trabalhadores dediquem-se integralmente a esta atividade, ainda onerosa para os padrões locais de um povo sacrificado. Contudo, a proposta foi colocada em prática e já vem gerando frutos para o início de outros projetos na região. Fica aí mais uma idéia de qualidade e de bem com o meio-ambiente.

Até a próxima,

6 de out. de 2008

Esgotamento ou salvação do Sistema Capitalista?


Foto: Sebastião Salgado
 A recente crise que se espalhou pelas maiores economias do mundo durante o segundo semestre de 2008 tem deixado grandes seqüelas por onde passa. O que não se sabe é se o seu estrago já tem data para terminar, ou se sua semente levará tempo a germinar.

A crise das hipotecas que se instaurou nos Estados Unidos no início de 2007 gerou conseqüências para a economia mundial. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), as instituições financeiras do globo reportaram perdas de quase US$ 1,4 trilhão até julho de 2008.

Após os mutuários norte-americanos terem ficado sem emprego e tido as suas casas tomadas por conta da inadimplência dos recursos emprestados, agora foi a vez da Zona do Euro ter registrado perdas envolvidas à recessão mundial. Igualmente, imigrantes que aí vivem já começam a deixar suas casas e retornam aos seus países fugindo das condições limites e o aumento do desemprego na região.

As seqüelas que tiveram origem no mercado financeiro norte-americana tornam-se cada vez mais nítidas na economia real e criam hoje uma situação de insegurança extrema até mesmo nas economias chamadas emergentes, cujas pegadas ainda não foram claramente rastreadas.

Com razão, o fenômeno da globalização financeira, que se manifestou no último quarto do século vinte, tornou os mercados tão interligados que passou a determinar um quadro de liquidez e volatilidade sem precedentes na história econômica mundial. Com a crescente interdependência entre os países, o desafio dos bancos centrais e dos órgãos multilaterais para a gestão da (des)ordem econômica tornou-se ainda maior.

Em um cenário ao que parece tão pouco promissor, a dúvida que fica é: quando essa crise chegará de vez ao Brasil? Será que apesar de todas as ações tomadas pelos agentes econômicos mundiais - dentre as quais as principais foram o acordo de US$ 700 bilhões de dólares de empréstimo do Tesouro americano ao sistema financeiro e os 50 bilhões de Euros do BCE com o mesmo propósito na Zona do Euro – haverá meios para por fim a recessão que se instaura no mundo? Ou esta crise veio mesmo para ficar e por fim ao sistema capitalista tal qual se é conhecido?

Por um lado, a clara supremacia do dólar norte-americano permite que este país continue a financiar sua dívida sendo uma espécie de credor e devedor simultaneamente. Trata-se de uma espécie de fundo perdido com o qual a economia norte-americana cria condições de viabilizar o financiamento da globalização comercial e produtiva, ao passo que potencializa a volatilidade e a instabilidade dos mercados financeiros globais.

A alternativa aos países não emissores de moedas conversíveis foi apenas uma: adotar uma clara estratégia de acumulação de suas reservas cambiais, que hoje superam os US$ 7 trilhões, como meio de resistir a um difícil momento na conjuntura mundial. Isto significa que em uma situação de recessão, as economias que acumularam reservas, como é o caso do Brasil (aproximadamente US$ 200 bilhões) apresentam uma gordura extra a ser queimada, antes mesmo que torrem com a sua carne.

Ao passo que os recursos angariados sejam corretamente aplicados, a tendência é de que ocorra uma reorganização do sistema financeiro mundial garantindo a salvação e um novo fôlego à economia mundial. Enquanto isso, uma das medidas que cabe ao Brasil para se resguardar neste momento é a de utilizar esta reserva como ferramenta de crédito interno até que a ressaca mundial seja finalmente curada.

Por outro lado, ainda não se sabe ao certo se todas as mazelas desta crise já passaram mesmo com as ações tomadas pelos agentes reguladores mundiais, ou se estas ainda estão por vir e com que intensidade. Algumas correntes, por exemplo, afirmam que tais medidas de socorro aos bancos só adiam um problema inerente ao Sistema Capitalista, a acumulação de capital.

A incapacidade de financiamento da sua máquina motora, a instituição financeira, trará um momento de profunda recessão a qual nenhum mercado deverá escapar. Semelhante ou não à crise dos anos 1929, a nova tensão causará pânico e desordem social. Maior em volume e lenta em velocidade, o rearranjo do sistema econômico deverá ocorrer em alguma base, possivelmente diferente a esta do "hipercapitalismo predatório" ao qual hoje se conhece, que então estará esgotado.